quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O valor da vida


Embora a vida seja um atributo extensivo a todos os seres humanos, há, porém, sérias divergências em seu significado, conforme a conduta de cada um.
Recentemente, um esportista saltou de avião sobre uma prancha de "skate", nova modalidade de esporte aéreo por ele defendida. Já adulto, com esposa e filhos, além de pais, irmãos e amigos, o esportista mergulhou e perdeu a sua vida, caindo no mar. Seu paraquedas não abriu e lhe custou caro.
Fica a pergunta: esse esportista tinha consideração pela vida? Amava a esposa e filhos, pais e parentes? Quando saltou do avião, colocou a vida em alto risco - e sabia disso. Entretanto, era de mais valia a ambição de ser líder naquele esporte suicida. Ambição que colocou acima da família, acima de sua própria vida.
Outro esportista brasileiro sumiu numa avalanche durante escalada solitária. Ao sair de casa, deixando a família, sabia que esse tipo de aventura deve ser praticado em equipe, pois sempre há imprevistos. Foi só e entregou a vida, que deveria preservar por amor aos seus.
Equilibristas se apresentam atravessando praças públicas sobre cabos de aço, sem rede de proteção. Esquadrilhas da fumaça fazem manobras não recomendadas pelas leis da física e alguns se projetam contra o solo. Outros adultos buscam destaque descendo em cachoeiras pendurados numa corda. Ou fazem navegação em rios de corredeiras traiçoeiras.
Não se consegue imaginar que esses humanos tenham apreço por suas próprias vidas, e respeitem suas famílias, preservando suas integridades físicas para conviver com elas.
E o momento de glória é efêmero, pois logo surge outro mais intrépido para quebrar o recorde conseguido até então.
Por outro lado, há aqueles velhos maduros, que se mantiveram longe dos perigos, e hoje são motivos de orgulho de seus familiares, a quem dedicaram suas vidas. Vidas longas, valorizadas e respeitadas por todos. Verdadeiros sábios disseminando o saber.
A campanha contra o fumo está em sua fase final, pela televisão. Uma boa iniciativa, sem dúvida, ainda que os resultados nacionais sejam pífios. Quando o jovem decide fumar, para ser aceito por sua turma, dá o primeiro passo para abandonar o cuidado com sua própria vida.
Fumantes desde tenra idade colhem os frutos – altamente perniciosos – de seu vício após os cinquenta anos, padecendo com doenças de todo tipo, não raramente fatais. Ou, quando não levam suas vidas, levam sua vontade de viver, pois doenças são os fantasmas da vida de todos.
Alcoólatras e drogados seguem o mesmo caminho dos fumantes. Também não prezam o valor de suas vidas e pagam um alto preço pelos abusos cometidos.
Porque há tantos que agridem a si mesmos, desprezando o benefício da vida, o prazer de viver sem riscos e sem doenças?
Fernando Pessoa já dizia: "Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu sinta excessivamente - perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza." Ao se aceitar um risco, as sensações ficam alteradas e se perde o juízo da vida. O ser humano se despersonaliza para viver um momento que pode leva-lo à morte.

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