
Após ser retirado da Reitoria pela polícia, junto com outros tantos colegas, foi para casa descansar. Afinal, havia noites que não dormia direito, comendo mal, deitado em chão frio, sem o conforto de sua casa. E ainda houve um confronto com policiais, ida à delegacia, pagamento de fiança. Muito desgaste em tão pouco tempo. Teve que ligar para o pai, pedindo o dinheiro que o manteria em liberdade.
Fez um lanche rápido e foi deitar para se recuperar. O cansaço venceu, o sono veio rápido. Dormiu. Sonhou.
O sonho é uma bênção, em várias situações. Nele, os fracassados se transformam em vencedores, os inconformados vêm seus ideais realizados. Ainda que, ao acordar, tudo não passe de mero sonho.
Foi assim com ele. Em seu sonho, voltou à praça de guerra da universidade, ao prédio da Reitoria que, junto com outros tantos como ele, ocupara, pichara as paredes, destruíra patrimônio público, instalara a baderna mostrada pela televisão.
Agora, ao menos em seu sonho, idealizou a universidade perfeita, aquela por quem estava lutando na vida real. Não essa que aí está, mas a que sentia ser realmente perfeita.
Deslocou-se para cada unidade de ensino, e, pelo caminho, teve a felicidade de ver pequenas bancas montadas por terceiros, vendendo a tão necessária maconha, em pequenos pacotes. Valeu-se de um deles, acendeu, e já começou a se sentir melhor, realizado. Em sonho, tudo se pode, tudo se transforma.
Na porta de cada faculdade, mais bancas oferecendo bebidas alcoólicas e drogas. Não se furtou ao prazer e comprou dois pacotinhos de crack. Usaria após terminar a maconha, certamente.
Seus colegas de ocupação, exatamente os mesmos, surgiram em seu sonho perfeito, todos fumando maconha, outros já tomados pelos efeitos do crack. Saudaram uns aos outros, com gestos característicos da juventude. Ali, decidiram não entrar em aula. Os professores, temerosos, não registrariam a ausência do grande grupo de alunos. Todo professor, em sonho de aluno ocupante, é medroso. Fica mais fácil, assim.
Foram para o prédio da Reitoria, mais adiante. No caminho, flagraram estranhos assaltando colegas, armas em punho, ameaçadores. No sonho, a polícia não entrava no campus, facilitando – e muito – os crimes de terceiros. Era a tão sonhada universidade aberta, o povo indo e vindo em seu domínio, a liberdade levada ao seu nefasto extremo. O grupo sonhador fingiu que não viu. Achavam isso parte do contexto pretendido.
Um braço ensanguentado escapava pela porta entreaberta de um carro parado. Um dos jovens do grupo foi olhar mais de perto. Era um assassinato, apenas. Nada de monta. Um aluno certinho a menos, pensou. Mesmo assim, era melhor não ter polícia dentro do campus, segundo eles. Alunos são muitos, este não faria falta.
Continuaram caminhando em direção à Reitoria. A caminhada não foi tão longa, ainda mais em sonhos de ocupantes idealistas.
Finalmente, o grupo chegou ao prédio onde fica a mais alta autoridade da universidade. Sem proteção alguma, sentiram-se à vontade para subir à sala do Reitor. Foram entrando, usando o direito de todo aluno ocupante, e dentro da linha de conduta própria de sonhos irreais.
O professor nomeado Reitor os esperava. No sonho, estava amedrontado. Queimaram os papéis sobre a mesa, quebraram computadores e impressoras, picharam as paredes com "palavras de ordem". O Magnífico foi quase arrastado para o lado de fora da reitoria, achincalhado por todos os membros do grupo, e expulso do campus. Os ideais do grupo se materializavam no sonho desenhado com cuidado.
Aos poucos, os professores foram abandonando suas salas de aula, cruzando, ao sair, com dezenas de vendedores de drogas e bebidas alcoólicas. Aquela universidade foi ficando vazia de cultura e cheia de ocupantes idealistas, cada um com sua bandeira-tema, muitas com graves erros de idioma.
Os meios de comunicação elogiando, no sonho, os ideais dos ocupantes. Entrevistado, cada aluno dizia, em seu linguajar peculiar de drogado, que, enfim, aquela universidade estava livre, agora dirigida pelos elevados objetivos dos ocupantes, sem policiamento ostensivo, cada um fazendo o que achava melhor.
Quando tudo parecia perfeito, eis que a natureza prega uma peça no ocupante-sonhador. Ele acorda. E vê que há um colossal abismo entre um sonho de ocupante e a realidade, para a felicidade de todos os que buscam outros ideais, na mais importante universidade do país.

1 comentários:
Nossa nação é feita de contradições: educação que só serve a poucos e mal; polícia que sabe mais de violência que de paz; estudantes que alegam lutar por todos sem nem mesmo escutar o que os outros têm a dizer. Para além da violência da ocupação e da violência da desocupação da reitoria da USP, o que está em jogo é uma percepção incoerente sobre como a sociedade deve funcionar. Seja a do sonho, seja a da realidade, é preciso que saibamos preencher as demandas básicas do nosso país - educação e segurança encabeçam a lista de prioridades - com um mínimo de equilíbrio e sentido do todo, não com base do individualismo a que estamos acostumados.
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