Desde o primeiro momento, não se sentira bem com aquilo.
Poderia perguntar a qualquer um de que se tratava, mas, meio envergonhado, preferiu calar-se.
Fechou-se em seu mutismo por mais de uma semana, mas aquilo vinha ao seu consciente, perturbando seu sono. Virara um meio-sonâmbulo, não prestava a atenção devida no trânsito, quase bateu o carro na avenida movimentada. Seus colegas de trabalho não o reconheciam.
Antes, comunicativo, brincalhão, sempre tinha alguma piada nova para contar e era apreciado por seu bom humor.
Agora, sentava-se defronte o computador, fazia seu trabalho, mas não mais levantava para o costumeiro cafezinho no meio do expediente.
Resolveu procurar um especialista no assunto.
Um amigo indicou um profissional de renome, considerado no meio e respeitado por seus conhecimentos.
Marcou dia e hora e foi para a primeira consulta.
O profissional o recebeu bem e deu ensejo para ele se abrir. Contou tudo, como se sentia e por que. Buscava explicações que o livrassem desse tormento.
Sério, o especialista ouviu atentamente e logo diagnosticou, com palavras exatas:
- "Trata-se de um palíndromo. Não há muito que fazer, a não ser aceitá-lo. Povos de outros países catalogaram casos similares ao seu, mas não se tem notícia de meios para eliminá-los!
O seu, em especial, é caso meio antigo, um anacíclico, e é um dos maiores que eu já detectei. Sugiro que procure um especialista na área psiquiátrica como apoio ao seu caso. Ele o fará aceitar melhor e viver menos tensamente".
Voltou para casa visivelmente transtornado. Começou a sentir, novamente, aquela insatisfação, aquele mal estar diante do caso.
Era jovem ainda, mal entrado em seus trinta anos, ficara noivo recentemente e via uma nuvem negra se aproximando, em seu futuro.
Aquele papel impresso o transtornava, a ponto de pensar em largar tudo, isolar-se, talvez, num monastério, deixar o convívio com amigos e familiares, ensimesmar-se. Ao lê-lo, sentia a presença do palíndromo, vivo, como que a debochar de sua insatisfação.
Soube de um grupo de jovens que se ligavam nesse mesmo mal: o palíndromo contaminando a todos. Mantinham-se em contato pela Internet.
Foi quando descobriu que havia uma leque acentuado de palíndromos, uns mais curtos, outros mais alongados. Veio uma pequena sensação de conforto ao saber que não era o único atingido, que havia outros.
Teve, então, a ideia de fazer uma reunião de aproximação desses igualmente atingidos pelo palíndromo. Marcou data e local, contratou um pequeno serviço de bufê, e convidou os todos aqueles que se comunicavam pela Internet.
No dia marcado, os internautas convidados foram chegando. Eram uns trinta ou mais.
Uma mocinha loira, mais comunicativa, depois de comer uns salgadinhos e tomar uma cerveja em lata, propôs, em voz alta:
-"Gente! Temos todos um elo em comum: o palíndromo! Sugiro que cada um fale do seu, aqui e agora, em voz alta, para melhor nos conhecermos! O que acham?"
Os outros participantes do encontro concordaram, ruidosamente, aplaudindo a proposta da loirinha.
Ela, então, tomou a palavra e disse:
- "O meu palíndromo é este: Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!"
Ela ouviu, meio encabulada, os aplausos. Sentou-se, dando espaço para aquele outro colega, o Júlio Cesar, que, ligeiramente, se colocou em destaque, já falando:
-"Pessoal! Não sei como irão reagir, mas também tenho um palíndromo e digo, agora, qual é:
A Diva em Argel alegra-me a vida!".
Novos aplausos. Diante dessa reação, o anfitrião se sentiu confortado. Tomou fôlego, pediu a atenção de todos e, emocionado, contou sobre o seu palíndromo:
-"Amigos! Como é bom tê-los aqui e poder compartilhar nossos casos de "palindromia". Sinto-me encorajado para lhes contar sobre o meu caso. É o seguinte: Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na moda da romana: anil é cor azul!".
Todos e cada um tiveram a sua chance de falar sobre o seu palíndromo. Foi uma noite especial, mesmo.
Na manhã seguinte, voltou a ser quem era. O palíndromo não mais o incomodava. Tinha sido aceito por todos, sem restrição. Era um novo homem. Ligou para a noiva e marcou o casamento.
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Nota: o termo palíndromo significa frase ou palavra que se pode ler da esquerda para a direita, ou vice-versa. Mas, por ser vocábulo pouco conhecido, resolvi usá-lo numa abordagem de moléstia. Volte às frases ditas pelos convidados e certifique-se de sua leitura nos dois sentidos.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
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