Já muito se escreveu sobre a amizade entre pessoas.
Nota-se que o próprio conceito de amizade varia, não apenas no tempo, mas também em termos geográficos.
Países há, na Europa, onde a amizade é entendida como um bom relacionamento entre pessoas, mas sem qualquer cor mais intensa que nós, latinos, costumamos chamar de amor.
Manter contato simpático com um vizinho já é suficiente, para tais europeus, como prova de amizade.
Aqui, em nosso país, isso vai além, certamente, de um bom-dia, boa-tarde. Para considerarmos alguém nosso amigo, ele tem que ser algo que implique em muito respeito mútuo e em diálogo constante para eliminar – ou amenizar – as farpas que possam ocorrer durante o relacionamento.
E essa preocupação deve ser bilateral. A amizade é, pois, uma via de duas mãos.
Sempre que a intensidade de relacionamento começa a se caracterizar em apenas um dos sentidos, lá se vai a mão dupla, e nuvens escuras começam a se formar no horizonte dessa amizade.
Um amigo verdadeiro jamais expõe o outro a uma situação crítica, julgando-o em aberto, dando pouco valor ao reservado.
Os acertos devem ser feitos, sempre, em particular, preservando um a imagem pública do outro. E, sobretudo, chegado a um acordo, fazê-lo vigorar por tempo indeterminado.
Há teorias que definem a amizade como algo finito, passível de acabar ao longo do tempo.
Outras, cheias de exemplos na história universal, defendem as verdadeiras amizades como algo duradouro, mesmo após a morte de um – ou de ambos os amigos.
Lembro ainda hoje a amizade que havia entre meu pai, experimentado professor, jornalista, poeta e escritor, e seus alunos. Em seu velório, eu soube, de viva voz, o quanto ele ajudou muitos de seus alunos, dedicando-lhes amizade profícua, e sem que jamais soubéssemos dos problemas de um sequer dentre eles. Meu pai os aconselhava em particular, orientando-os em suas vidas, preservado suas intimidades. Uma amizade de mão dupla, certamente, que lhe valeu o reconhecimento, por 17 anos consecutivos, através de sua escolha como paraninfo das turmas que formara.
Entretanto, vejo que esse conceito de amizade tende a se modificar, com o passar do tempo, com os interesses imediatos das pessoas envolvidas num dado relacionamento.
Como se o amor ao próximo esteja se tornando algo menos importante, o que traz, certamente, fendas às paredes que contêm os melhores sentimentos.
Sabe-se, com frequência, de amizades que ruíram por razões de somenos importância, e nem por isso deixaram um saldo de tristeza. Como se fazer um amigo fosse algo trivial, e de natureza finita, de vida curta. Perde-se um hoje, ganha-se outro amanhã.
Eu cultivo minhas amizades e busco manter as duas vias desses relacionamentos com trânsito regular. É verdade que vários supostos amigos já me pregaram suas peças, causando interrupção no trânsito, no sentido de uma das mãos.
O tempo acaba, de forma inexorável, apontando a falsidade dessas amizades e colocando tudo em seu devido lugar.
Continuo acreditando que somente a amizade com dupla mão de relacionamento, com um alto respeito mútuo, prevalece e traz a riqueza e o amor que tanto precisamos para nos diferenciarmos daqueles que nada sentem.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
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