É comum ouvir comentários sobre quadros com pinturas modernas com um tom de desprezo: “Isso deve ter sido pintado com a cauda de uma vaca molhada em tinta!”
Em parte isso se deve ao fato de não se poder entender o que ali está, o que o autor do quadro quis representar em sua arte.
Não raramente, o autor de quadros modernos explica o que não entendemos na etiqueta ao lado do quadro, o que não significa, necessariamente, haver um ganho de aceitação por parte de quem vê o quadro.
Recentemente fui a uma exposição de vários artistas aqui de Campinas, ali na Unicamp, e investi certo tempo tentando entender alguns quadros modernos expostos. Nada mais frustrante!
Numa das telas de maior tamanho, tinha no centro uma mancha informe na cor vermelha e, acima dessa mancha, um triângulo feito com traços grosseiros. Nada vi ali que pudesse me passar a ideia do autor. Fui, então, à etiqueta ao lado e li o título do quadro: Deus vê com tristeza os crimes da humanidade.
A mancha vermelha, no meu entender, deveria ser o sangue derramado nos crimes cometidos aqui em nosso planeta, e o triângulo sobre a mancha entendi como sendo a Santíssima Trindade.
Resumindo, se não houvesse etiqueta explicando, eu teria saído da exposição sem ter entendido a obra do artista.
Foi, portanto, a palavra contida na explicação da etiqueta que me valeu como muleta intelectual no exercício de entender a obra.
Um livro escrito por Tom Wolfe, intitulado “A palavra pintada” vai fundo nesse tema de arte moderna de entendimento explicado pela palavra, e não pelo conteúdo da tela.
O autor, jornalista e crítico de arte norte-americano, varre o século XX com sua ironia inteligente, sempre perseguindo a “arte nova” que se espalhou pelo mundo, trazendo telas de conteúdo e gosto duvidosos. Alguns quadros ficaram tão famosos, e seu valor de mercado tão elevado, que o crítico de arte foi investigar como isso se fez possível.
A partir da década de 20 do século passado, a sociedade mundial passou a achar muito chique adquirir quadros que fugissem do acadêmico. As principais capitais do mundo desenvolvido passaram a manter exposições e a mídia vem dando cobertura a essa nova interpretação da arte, distante do acadêmico.
O que, para alguns críticos era uma evolução da arte, para outros, mais presos ao tradicional conceito desta, era pura expressão de pretensos artistas mal formados.
Segundo Tom Wolfe, os novos artistas vieram para intrigar ou subverter a confortável visão burguesa da realidade. O importante era a interpretação dada a cada obra pela palavra do autor.
Grandes exposições passaram a reservar espaços para os textos explicativos da origem e do conteúdo das obras modernas. Sem as explicações, um quadro poderia ser visto como um campo de centeio pós-colheita, ou como nuvens do Éden, dependendo de quem a via pela primeira vez. Todavia, com o texto ao lado, a arte se submete à palavra.
Apreciadores da arte moderna poderão, certamente, discordar dessa abordagem direta e chamar em seu favor nomes como Picasso, Pollock e outros tantos que se imortalizaram.
Mas muitos são os fatores que imortalizam a criatividade, e nem sempre tais fatores passam pela verdadeira arte.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário