Como todos nós, era um pecador. Mas dos pequenos.
Não era político de Brasília, nem administrava concorrências públicas.
Sua vida era calma, morava na periferia, ainda devia prestações de sua pequena casa, filhos em escolas públicas, mulher costurando para fora. Recebia o Bolsa-Familia, mesmo não precisando disso.
Nos finais de semana, uma cervejinha com churrasco. Filmes na tv aberta, nada de assinaturas de tv a cabo.
Um dia, tem um ataque cardíaco e morre, antes que chegasse o 190. Convênio, nem pensar.
Durante o processo de sua morte, já estava acionado o sistema celeste de avaliação de pecados.
Os anjos de plantão levantaram seus dados pessoais e, diante da reduzida gravidade de seus pecados terrestres, decidiram enviar sua alma ao purgatório. Lá seria melhor avaliado, certamente.
O esquife ainda estava aberto, a esposa e filhos chorosos, os convidados contando suas velhas piadas lá fora, no puxadinho, e sua alma já tinha pegado senha para atendimento no purgatório.
Lá pelas tantas, uma voz suave, mas clara, diz seu nome:
- Astrovaldo!
Senha em riste, ele se aproxima do anjo e cumprimenta. Sempre cumprimentara todo mundo, lá no bairro e no serviço, na marcenaria. O nome - um tanto estranho - fora definido pelo pai, o Florisvaldo, que queria muito ver o filho como astro de televisão. Assim, o “astro” se antecipou ao radical “valdo”. Ninguém jamais o chamou pelo nome completo. Era simplesmente Valdo.
O anjo pede que sente (ninguém sabe se alma senta, ou não, mas fica a liberdade de criação), e começa um diálogo entre os dois:
- Seu Astrovaldo (o anjo, dissimuladamente torce o nariz diante do nome estranho). O senhor tem pecados, mas não em peso e número suficientes para impedir seu ingresso no paraíso. Logo, foi enviado para cá. No purgatório é que são avaliados os de poucos pecados, desde que todos leves. Vamos enumerar alguns deles, apenas, e ouvir suas justificativas.
A alma do Valdo ficou um tanto nervosa, pois nunca imaginara que alguém ficava fazendo prontuário de pecados, enquanto ela andava aqui por baixo, na terra. Ainda assim, concordou, meneando a cabeça translúcida (outra liberdade criativa).
- Então, vamos lá! O senhor, um dia, chamou sua sogra de megera. Porque? Ela merecia isso?
- Bem, “seu” anjo! Que homem casado nunca chamou a sogra de megera? É melhor xingar a sogra e continuar casado do que se separar da esposa, né não?
O anjo concordou, em silêncio. Não podia se pronunciar em voz alta, pois outras almas estavam ali sentadas, com senhas na mão, esperando ser atendidas e poderiam achar que o anjo estava errado, era simpatizante de genros.
- Mas, em outra ocasião, o senhor disse que seu patrão, o Leonel, estava sendo injusto no pagamento de salário. Isso dito na frente de outros funcionários da marcenaria. Se arrepende disso?
- Não, “seu” anjo. O Leonel sempre cobrava muito pelos serviços e pagava pouco para os funcionários. Eu apenas disse a ele o que todos pensavam.
O anjo estava começando a prever um final pouco interessante para a entrevista com a aquela alma. O tal de Valdo sempre tinha bons motivos para tudo o que pecou. Eram pecados no varejo, e não por atacado, como aqueles outros vindos lá do planalto central.
Tentou novamente pegar a alma pecadora num ato de arrependimento.
- Quando a Ponte Preta caiu para a segunda divisão, há quatro anos atrás, o senhor disse que o presidente do clube era o responsável por isso e queria que ele se danasse. Não se diz isso de um presidente de clube, muito menos sendo a Ponte Preta, velha guerreira, orgulho dos campineiros. Está arrependido de ter acusado o homem?
- Olhe, “seu” anjo! Se o senhor encontrar lá embaixo, no planeta Terra, algum torcedor que não concorde comigo, que não esteja sofrendo, até hoje, pelo rebaixamento da Ponte, eu peço perdão ao presidente. Pode crer!
O anjo ficou em dúvida. Realmente, a alma do Valdo não era das piores. Nunca tinha se metido em grandes atos de suborno, nunca tinha preparado “dossiês” forjados de última hora, nunca tinha apoiado o MST... Era, ao tudo indica, um pecador classe A, dos bons, quase inocente.
Resolveu, então, testar um último aspecto da vida daquela alma.
- Se o senhor estivesse vivo até o final de 2010, em quem votaria para presidente do Brasil?
- Na guerrilheira, “seu” anjo. Eu sempre achei ela uma mulher das bravas e, além de tudo, é amiga do “homem”. E o Bolsa-Família me ajuda na cachacinha dos sábados. Pena que morri! Ela merece meu voto!
O anjo, pego de surpresa, não hesitou. Apertou o botão de liberação, sob o balcão do purgatório, o chão se abriu e o Valdo caiu para as profundezas do inferno.
Ano de eleição tem isso!
Nem anjo do purgatório perdoa os que não sabem votar...
segunda-feira, 18 de abril de 2011
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