segunda-feira, 18 de abril de 2011

Coleira e chicote no consultório

A Austrália virou noticia nos meios acadêmicos com uma experiência realizada por um psicólogo, de nome Bruce Beaton, de 64 anos.
Em seu consultório, após haver tentado recuperar uma paciente com problema de bulimia, usando métodos tradicionais, e não ter conseguido qualquer resultado, o psicólogo decidiu tentar outros recursos.
Assim, a partir de uma determinada sessão, o doutor Bruce levou para o seu consultório uma coleira de cachorro e um pequeno chicote.
Convenceu a paciente, de 22 anos de idade, que se ela se submetesse ao novo tipo de tratamento os resultados logo apareceriam.
Vendo suas chances diminuírem, após um certo período de visita ao psicólogo, a jovem decidiu aceitar o que o profissional sugeria.
O doutor Bruce colocou a coleira no pescoço da jovem e informou que a paciente deveria passar a chamá-lo de “mestre”. O objetivo era criar um relacionamento “mestre-escrava”, com o qual o doutor pretendia ganhar a confiança da moça, o que lhe abriria caminho para curá-la da bulimia.
E assim foi, durante quatro sessões.
Mas, a polícia foi informada – talvez por algum parente inconformado com a abordagem “canina” adotada pelo psicólogo – e resolveu colocar uma câmera oculta no consultório e flagrar esse excêntrico tratamento ao vivo.
Preso e processado, o doutor Bruce alegou ao juiz que estava usando método aprovado pela Sociedade Psicológica Australiana, e que, em momento algum, fora além do que permitem as regras médicas para tratamentos de seres humanos.
O julgamento ainda vai levar um bom tempo para chegar a termo. O doutor Bruce garantiu jamais ter usado o chicote para magoar sua paciente, e que tal instrumento tinha apenas a finalidade de complementar o quadro onde um mestre ordenava a uma escrava fazer somente aquilo que ele lhe dissesse.
O tema bulimia foi explorado em uma novela das oito da Rede Globo, onde uma moça de 15 anos lança mão do vômito provocado para se manter magra, dentro do padrão vigente na sociedade moderna.
Não por acaso, alguns estilistas de moda da Europa decidiram não contratar modelos exageradamente magras para desfilarem suas criações. Coincidentemente, uma conhecida modelo brasileira faleceu em virtude de bulimia, tendo cobertura da revista Veja, algumas edições atrás.
Enfim, espera-se que os exemplos fatais, acompanhados pelas restrições profissionais contra as “modelos-puro-osso”, despertem na mocidade a preocupação em não perseguir tão açodadamente os padrões de físico que a mídia tanto enfatiza e define, por meios subliminares, como marca do sucesso social e profissional.
O maior cientista de nossos tempos, Stephen Hawkins, é tetraplégico. Einstein era gorducho. Não se conseguiu, jamais, relacionar a elegância com a inteligência. Logo, o sucesso não está em ser magrinho, com as assim chamadas barrigas de “tanquinho”, músculos bem formados e exuberantes.
Todo dia se verifica a contratação de pessoas por empresas, baseadas única e tão somente em seu conhecimento, em seus cursos de pós graduação e, não em músculos à vista, ou medidas físicas ideais.
Por ironia, os jovens de hoje perdem um tempo precioso em academias de ginástica e, no momento em que buscam entrar no mercado de trabalho, não têm qualificação suficiente para os cargos oferecidos. Investem seu tempo no aperfeiçoamento do corpo, em detrimento do conhecimento estendido.
Não há mal algum em fazer exercícios, é evidente.
Ao contrário, o sedentarismo é preocupante, pois atrai diversas doenças. Todavia, há que se equilibrar a saúde física com a saúde mental. O “tanquinho” passa, com a idade, a riqueza intelectual permanece bem além dele.
Os profissionais que atingem o sucesso em suas respectivas carreiras, em geral passam muitas horas por dia sentados, defronte um computador, ou em infindáveis reuniões. E, aquele ritmo de ginástica em academia acaba ficando em segundo plano. Recomenda-se, nesses casos, a busca de um equilíbrio entre o necessário (sentar o dia todo) e o ideal (exercitar-se em caminhadas ou academias).
Ou, em última instância, procurar o doutor Bruce e se sujeitar ao seu tratamento psicológico onde haverá um chicote e uma coleira, ainda que sem uso, necessariamente.

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