terça-feira, 9 de junho de 2009

Quando um R faz a difereça

A recente revogação judicial do alvará que permitia uma criança de 7 anos participar de programa do SBT chamou a atenção da imprensa e, de certa forma, de muitos brasileiros.
A menina impedida de trabalhar naquele canal de televisão se chama Maisa Silva, quase uma homônima de nossa primeira dama, Marisa Silva.
Mas, essa quase semelhança nominal contém uma colossal diferença entre os perfis das duas mulheres - uma, criança e a outra já bem mais madura, em seus 59 anos.
Nossa primeira dama é de pouca - ou nenhuma palavra - mesmo nas ocasiões onde o cerimonial abre espaço e ela deveria se fazer ouvir. Nada!
Já a menina Maisa esbanja comunicação, com palavreado e sintaxe observada bem acima do que se espera em sua pouca idade. Ela prende a atenção de um auditório repleto e, certamente, de muitas famílias que, aos domingos, a assistem na longa tarde. Maisa improvisa suas falas, o que, é evidente, deixa os produtores de seu programa em situações nem sempre confortáveis, pois a criança-prodígio está se lixando, como diria aquele político, para a opinião pública, e de seus redatores em especial.
A dama Marisa viaja pelos quatro continentes, sai nas fotos oficiais ao lado do marido -esse sim, um falastrão, que despreza o vernáculo e fala em rede de televisão como se estivesse nas gerais de um campo de futebol, onde seu time predileto está em campo. Talvez isto complete o casal, um mudo e outro loquaz. Mais que isso, a primeira dama não sai pela cidade visitada, seja Kinshasa ou Paris, para conhecer obras assistenciais, entidades voltadas para crianças ou centros de pesquisa educacionais. Se saísse, teria que falar, e isso ela não faz, em hipótese alguma.
Um paralelo com a inesquecível Ruth Cardoso é quase inevitável. Nesta, a cultura vazando em obras assistenciais, em declarações inteligentes, compatível com a formação pessoal e a do marido. Na outra, o mutismo próprio de quem nada tem a dizer, sobre coisa alguma, ainda que as mais óbvias.
A menina Maisa Silva tem pouca - ou nenhuma - chance de se tornar primeira dama de nosso sofrido país. Nada nos impede, porém, de imaginar como seria.
Sua fala inteligente, criativa, aperfeiçoada com a idade e o estudo superior, permitiria expor seus pensamentos sobre diversos aspectos da vida do Brasil, influenciando opiniões, catalisando as atenções dos políticos para aprovação de leis de efetivo interesse nacional. Sua imensa simpatia, que desde já se faz presente, despertaria um novo ícone na presidência da nação, o que serviria de calço para as ações do marido-presidente.
Desde já a menina não se alinha com o linguajar popularesco - e, por vezes, despudorado - de seu atual patrão, outro apedeuta que veio das calçadas, onde era mascate, para a direção de um pequeno império de comunicações. Talvez a primeira dama quase homônima não se importasse com isso, mas a pequena notável, versão atual da saudosa Shirley Temple do cinema americano, se sentiu agredida com as frases pouco inteligentes de seu patrão, com quem divide o programa dominical, e saiu de cena chorando. Como se fosse apenas uma criança de sete anos.
No cenário do “tudo por dinheiro”, pode-se entender, mesmo que não se aceite, pais de parcos recursos explorando uma inteligência infantil capacitada a fazer o aporte de recursos que eles - os pais - não conseguiriam, por vias normais. Mas não se consegue admitir a isenção dos pais no caso da agressão pública sofrida pela filha menor.
Embora um tanto tardiamente, se fez justiça nesse quadro vulgar, de pouco ou nenhum aspecto cultural, onde um marmanjo de voz empolada usa sua larga experiência na argumentação vazia para causar o choro na menor.
No dia 22 de maio passado, o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão enviou ofício ao Ministério das Comunicações indagando das medidas contra o programa onde o ex-mascate pressiona com perguntas impróprias a menina prodígio.
Não se tem notícia, ainda, do pronunciamento do Ministério envolvido, embora o prazo de resposta seja convencionado em apenas cinco dias.
Enquanto isso, o iletrado gato poderoso vai continuar brincando com o pobre camundongo infantil.