O pessoal do Greenpeace tem conseguido diversas vitórias em sua luta contra os que não respeitam o meio ambiente. E todo mundo aprova tais objetivos, pois os entendemos como necessários para a preservação de nosso planeta.
Assim, quando lutaram pela suspensão da pesca da baleia, houve uma reação em todo o mundo e tal atividade foi extinta, ou muito minimizada.
Uma nova investida do Greenpeace, entretanto, nos leva a rever a seriedade de seus propósitos. O conhecido movimento acaba de hastear a bandeira pela... acreditem... suspensão da produção de papel higiênico macio!
Se olhado apenas pelo ângulo purista dos integrantes do grupo ambientalista, haverá muita gente que apoiará a supressão do papel higiênico macio de seus banheiros residenciais e profissionais. Esse tipo de papel exige o emprego de mais cloro para garantia de sua brancura perfeita e não pode usar papel reciclado, pois estes são ásperos, podendo irritar a superfície de nossa mais recôndita superfície intima.
Mais cloro, mais poluição, segundo o Greenpeace.
Tudo bem, entendemos isso, mas... e ela, a parte afetada, raspada com papel reciclado de segunda linha, vilipendiada em nome do meio ambiente, embora também seja, em si, um meio a considerar?
Quem lutará por ela? De nome nunca pronunciado em mídia que se preze, a vítima de tal perseguição não poderá ser, simplesmente, abandonada à sua própria sorte!
Temos que reabilitar seus direitos ao macio, ao agradável, ao confortável contato, ainda que efêmero, com um papel de duas - talvez três - camadas brancas, superpostas para nosso conforto e proteção dela, a coitada.
Mas, como faremos sua defesa? Foto dela, ampliada, na mídia, em close frontal, mostrando os vergões gerados pelos reciclados... nem pensar! Os pudicos responderiam com uma contra-ofensiva pesada, atacando os meios de comunicação como devassadores da intimidade dos castos.
Entrevistas em programas de grande audiência na televisão, onde representantes de diversas classes sociais mostrariam para as câmeras o péssimo estado “delas”, e acusando os reciclados, além do Greenpeace, como os geradores de tanto sofrimento? A censura não permitiria, embora os próprios censores, ao assinar o ato de veto, fossem obrigados a apor seus nomes em pé, sem poder sentar, igualmente vítimas dos reciclados.
Uma campanha oficial, do Ministério da Saúde, mostrando os sulcos avermelhados criados pelos reciclados e descrevendo possíveis desenvolvimentos de efeitos colaterais, como inflamações generalizadas, dificuldade no andar (coitado do Juscelino, nosso eficiente carteiro!), e outros possíveis danos? Não consigo imaginar o ministro da pasta, todo engravatado, como sempre, mostrando no modelo vivo, ao lado, tudo isso que foi dito como coisa ruim. O modelo até poderia ser um artista global, para chamar a atenção dos que estiverem pensando em apoiar o Greenpeace, mas que, certamente, desistiriam ao ver o Cauã todo arranhado, com cara de sofredor, lágrimas nos olhos - talvez falsas - mas nem por isso menos convincente. Acho que o sistema de autocensura não aprovaria, mesmo que ela, a focalizada, fosse a do Cauã.
Nos Estados Unidos, a nova empreitada do Greenpeace não colou. Lá há papéis higiênicos de até três camadas e, como se pode prever, elas, as escondidas, devem estar felizes e satisfeitas, sem arranhões de reciclados, sentindo-se prestigiadas por saber que seus donos as respeitam e as querem bem tratadas.
Aqui, em nosso país, temo que surja algum programa oficial, o Papel-Família, que distribua apenas e tão somente papéis higiênicos totalmente reciclados, muito ásperos e desagradáveis, mas entregues gratuitamente aos trabalhadores em todos os postos de saúde. O lema do programa, que podemos imaginar, seria algo do tipo: “Arranha, mas limpa!”
Elas que se cuidem!
segunda-feira, 23 de março de 2009
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