Com essa pergunta simples, o Juquinha colocou a mãe em situação difícil.
Pesquisa recente mostrou que a maioria dos brasileiros que vivem na periferia das cidades grandes não sabe exatamente o significado dessa sigla tão em moda, na mídia atual.
- "Bem, filho! CPI é... é... é... um monte de gente tentando resolver problemas!"
- "Como no vestibular que meu irmão fez e não passou em matemática?"
- "Não exatamente, Juquinha! No vestibular os problemas podem ficar sem solução, e quem se prejudica é apenas o mau aluno, mas nas CPIs não. É o país inteiro que fica prejudicado!".
O garoto não se deu por satisfeito.
- "Mas, se prejudica todo mundo no Brasil, porque demora tanto a resolver o problema das CPIs?".
A mãe virou o bife na frigideira, abaixou a chama no bico de gás do fogão, e pressentiu que a conversa seria complicada.
- "Demora porque tem gente que fica repetindo as mesmas perguntas que outros já fizeram, usando o celular, conversando com outros na mesma sala, lendo revistas, ou simplesmente olhando para as paredes, sem participar!".
O Juquinha fez cara de quem estava pensando, enquanto a mãe tirava o bife frito da frigideira e punha outro em seu lugar.
- "Mas, se esses que ficam lá, sem falar nada, ou falando besteiras, só atrapalham, porque o dono da CPI não põe para fora da sala, como faz a Tia Nair, na minha escola, quando algum colega não presta atenção?".
- "Filho! CPI não é como escola! Não se pode mandar sair uma pessoa que faz parte da CPI. Eles são adultos, e não alunos, como você!".
- "Mas se estão atrapalhando a aula, quer dizer, a CPI, estão atrapalhando o Brasil, não é, mãe?".
O segundo bife foi retirado da frigideira.
- "Estão, filho! Mas essas pessoas têm um prazo para resolver os problemas. Então, devem deixar tudo prontinho dentro desse prazo".
- "Mas a tv disse que a CPI do ... como é mesmo? ... mensalão, tem que terminar hoje os seus trabalhos e tudo ainda está atrasado. E se não der tempo?".
Agora foram as batatinhas para a frigideira. Cortadas à francesa, com um pouco de manteiga, cebolinha e orégano, para dar mais gosto.
- "Se não der tempo, fazem um relatório – um papel escrito, explicou – com o que acham que seria a solução dos problemas. Se esse papel não for aceito, tudo termina e fica como está. Ou seja, de nada valeu tudo isso!".
As batatinhas foram mexidas, para não pegar no fundo da frigideira e dourar por igual.
- "E a diretora não vai mandar todo mundo embora desse lugar onde ninguém decide nada? Se fosse na minha escola, os professores seriam trocados por outros".
- "É, filho! Mas lá em Brasília as coisas não são tão simples como em sua escola. Eles fazem o que querem, não são postos para fora da sala nem mandados para a Diretoria, os professores continuam dizendo o que querem, atendendo o celular... tudo igual!"
- "E o que a senhora vai fazer para acabar com isso, mãe?"
As batatinhas foram colocadas sobre um papel absorvente, para retirar o excesso de óleo. Estavam lindas, apetitosas!
- "Eu só posso não votar mais nesses que ficam falando no celular, ou conversando. Eu consigo reconhecer a cara deles, na tv. E, assim, eles não ficam mais lá na sala de CPIs enganando a gente, quando deveriam resolver os problemas".
Os bifes e as batatinhas foram levados para a mesa da copa.
- "E eu, mãe. Posso não votar neles, também?".
- "Não filho. Embora você, que ainda é uma criança, já tenho percebido o que é uma CPI, não tem idade para votar. Mas, vai lembrar dessa nossa conversa, quando for eleitor, certamente!"
- "Mãe, e se...".
- "Chega filho. O almoço está na mesa e vai esfriar. As CPIs podem esperar. Vamos!"
Durante o almoço, o menino estava triste, ensimesmado, olhar distante. Alguém, nesse imenso país, estava preocupado com as CPIs.
segunda-feira, 23 de março de 2009
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