Não entendo o Carnaval. E olhe que já tentei - com afinco - compreender o que esse evento representa para o brasileiro médio.
Digo “brasileiro médio” porque acredito que os brasileiros de cima, e os de baixo da pirâmide social do Brasil não são assim tão apaixonados por essa festa pagã de nosso calendário. Os ricos não precisam de data marcada para se divertir, pois os recursos para esse fim estão sempre à mão. E, os pobres, que vivem em situação de penúria, justamente por isso não têm acesso aos grandes desfiles, aos salões enfeitados, contentando-se com as imagens vistas na televisão. O Bolsa-família não dá direito a assento, nem nas arqui-bancadas. E nem permite comprar abadás para toda a família.
Já o médio, esse sim, gasta, viaja, se junta, pula, dança, sua, grita e se acha realizado.
O folclore do Carnaval coleciona histórias incríveis associadas a essa festa profana, que chega a este século vinda lá do período medieval. Em sua origem, ela se caracterizava pela alegria intensa, ausência de qualquer tipo de repressão e de censura, permitindo a liberdade de atitudes críticas e eróticas.
Algumas dessas características medievais continuam a existir, em pleno século 21, sobrevivendo há mais de quinhentos anos.
É comum se ver o advogado sério, de aspecto fechado, sair vestido de bailarina de can-can, com sua enorme saia rodada. Isto é liberdade, no entender do profissional. Ou, aquela diretora de escola pública que sempre se fez notar por ser intransigente com seus alunos e funcionários, ir para a avenida travestida de fada benfazeja, buscando o oposto para atingir um suposto equilíbrio. E ninguém a censura, é claro!
Pior, ainda, o engenheiro com três graduações superiores, que se veste como Cinderela e, sob o véu discreto, passa desapercebido no meio da multidão.
Sei de famílias que passam por momentos difíceis, por razões diversas, mas que não perderam uma noite de desfile em escolas de samba, como se o Carnaval tivesse um poder
imenso de interromper os dramas pessoais e familiares - ao menos nesses dias de momo -
para tudo retornar na quarta-feira! O que uma fantasia não faz naquele que sofre!
Mas, tão certa quanta a alegria do Carnaval, chega a quarta-feira de cinzas. E, efetivamente, muitos foliões se encontram tão queimados que chegam até ela quase sob a forma de cinzas. Os problemas voltam a dominar as cabeças, até a pouco mascaradas, e com maior grau de intensidade, pois o sentimento de culpa é a ressaca da folia.
Uma senhora octogenária declarou, na televisão, quando flagrada num bloco carnavalesco, que “essa era a maior felicidade de sua vida”. Não a conheço, mas imagino que tenha se casado com um marido corintiano, morado com a sogra por muitos anos, exercido o magistério em escola recheada de maus alunos, e se aposentado, já viúva, com uma pensão irrisória. Nesse caso, com certeza, o Carnaval seria a maior felicidade de sua vida.
Há, todavia, algo que deveria ser mais bem observado, nos dias que antecedem o Carnaval. A expressão “deitar cinza nos olhos” tem o significado de iludir, de enganar.
Então, os que sofrem com problemas familiares e pessoais, que estão no fundo do poço, descrentes da vida, angustiados, deveriam antecipar a quarta-feira de cinzas, deitando-as em seus olhos na semana anterior e, depois... cair na folia! Estariam iludidos durante o Carnaval, protegidos de seus males.
O que é uma separação para um casal quando o Neguinho da Beija-Flor puxa um samba enredo, com refrão repetido por milhares de pessoas? O que é um filho na UTI quando os abre-alas da Império Serrano se apresentam em sincronia perfeita, arrancando aplausos da multidão? O que é uma ordem de despejo para um desempregado quando o mestre-sala e a porta-bandeira da Mangueira evoluem, graciosos, lindos e soltos, na avenida ensurdecida pela vigorosa bateria campeã?
É. Eu realmente nada entendo de Carnaval...
segunda-feira, 23 de março de 2009
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