segunda-feira, 23 de março de 2009

A chacina dos corruptos

Ele acordou bem cedo, ainda de madrugada. Devia ser umas 4 horas, no máximo.
Sentou-se na beirada da cama, espreguiçou, olhou a mulher ao lado, ainda dormindo profundamente. Passou-lhe pela cabeça a idéia de voltar a dormir mais um pouco. Mas, logo a rejeitou. Tinha uma missão: iria atrás dos corruptos!
Foi à cozinha, tomou um copo de leite de cabra, comeu um pedaço de pão amanhecido. Vestiu-se, pegou o casaco mais pesado para protegê-lo do frio.
Saiu, e foi diretamente ao ponto de encontro com seus companheiros de caça aos corruptos. Já estavam quase todos lá, na esplanada central, meio impacientes. Faltava apenas o Delcídio, que consideravam, na hierarquia local, como "o chefe".
Não demorou muito e Delcídio surgiu na esquina, com sua figura enorme, cabelos grisalhos, com jeito assim de Antonio Fagundes, mas sem o charme deste.
Completado o grupo, seguiram, rua abaixo, em direção à esplanada.
Mais além, ficava o local de trabalho, onde procuravam corruptos e os dizimavam. Não tinham problemas de consciência. Iam matando, um a um, cada corrupto que encontravam.
Sentiam uma certa vaidade em sua profissão. E, ao mesmo tempo, um certo remorso.
Sabiam que era função de cada um pegar tantos corruptos quantos pudessem. Mas, vez por outra, sentiam o peso dessa função.
Enquanto a grande maioria do povo brasileiro ainda dormia, eles já estavam atrás de corruptos. Quando os jovens de amanhã acordassem, o Brasil teria muitos corruptos a menos. Tinham certeza disso e executavam seu trabalho para ter, a cada dia, mais eficiência, mais corruptos mortos, dizimados no local.
Os corruptos iam sendo amontoados, ali mesmo, sobre a areia.
O som era inconfundível. A cada nota surda, a cada som lembrando um gemido, um corrupto era exterminado. A madrugada ia se aproximando, aos poucos, de seu fim e alguns poucos sinais de aurora podiam ser notados, na linha afastada do horizonte.
Ninguém falava. Entendiam-se pelo olhar, apenas. A comunicação não verbal era mais que suficiente para eles. Novo gemido, novo corrupto sacrificado. Um a menos.
O sol teimou um pouco em aparecer. Mas, não tinha alternativa e, como sempre, acabou pondo a cara de fora, lá bem longe.
O grupo, agora, era bem visível, cada fisionomia bem definida. Estavam todos cansados, percebia-se. O objetivo maior – a caça aos corruptos – os motivava a continuar.
Algumas pessoas se aproximaram e passaram a acompanhar o trabalho deles. A cada corrupto sacrificado, uma expressão de repúdio surgia nas faces delas.
Sabiam que era necessário caçar os corruptos, e que esse trabalho cabia ao grupo ali presente. Certamente, ninguém queria estar na pele daqueles caçadores.
Os corruptos mortos, empilhados em praça pública, começavam a exalar um cheiro ruim, que lembrava a todos a morte, a curta existência em vida. Uma mulher jovem, grávida, se afastou do grupo de observadores e, não contendo sua ânsia, vomitou ali mesmo, ao sentir o cheiro de corruptos mortos.
Os caçadores, pela longa prática no extermínio de corruptos, já estavam acostumados ao cheiro intenso. Apenas um deles, o Zé Dirceu, usava um lenço sobre o nariz e a boca – uma espécie de mordaça – para não sentir o cheiro de corruptos mortos.
Dirceu tivera um emprego anterior, de maior importância, mas fora despedido por justa causa. Ninguém comentava o fato, para não atormentar o já tão triste Zé Dirceu. O grupo o aceitou, certa madrugada, naturalmente, sem alarde, como mais um que queria acompanhar a caça aos corruptos. Na verdade, Zé Dirceu pouco caçava, mais observava o desenrolar da caça.
A manhã já ia a meio quando decidiram parar. A pilha de corruptos executados era enorme. Deram a missão daquele dia por cumprida. Zé Dirceu foi buscar o veículo que usavam para transportar os corruptos mortos. Todos ajudaram a colocar os extintos sobre o veículo.
Mal olharam para a platéia que ainda estava por ali, acompanhando. Muitos, por sua ignorância, não apoiavam a caça aos corruptos e eles sabiam disso. Como explicar a necessidade de tal trabalho? Outros, ao contrário, exprimiam sua satisfação, com um leve sorriso no canto dos lábios. Sabiam que isso tinha que ser feito por alguém.
O veiculo saiu, se arrastando em direção à esplanada central, seguido pelo olhar dos que se aglomeraram no local da chacina.
Delcídio sabia que, na próxima madrugada, tudo recomeçaria. Era seu dever, sua missão. Outra pilha de corruptos surgiria, outros observadores acompanhariam.
Era a rotina de quem caça corruptos...

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Nota: Há uma espécie de crustáceo, que vive nas profundezas da areia de determinadas praias do sul do Brasil, que são chamados vulgarmente de "corruptos". Os pescadores extraem os crustáceos da profundidade, usando uma bomba rudimentar, feita com canos de PVC, e os vendem como isca para pescadores profissionais ou amadores. O texto acima se refere à caça deles.

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