Fui a Paris, alguns dias atrás.
Muita gente vai, eu sei. Mas, fui para tornar realidade um sonho de juventude.
Doze anos em escola da colônia francesa em São Paulo (o Liceu Pasteur, na Vila Mariana), mais dois na Aliança Francesa, somados às dúzias de posters pendurados nas paredes de toda e cada sala de aula. Isso cria uma vontade doida de ir conhecer Paris, garanto!
Sou do tipo que lê antes sobre o destino, compra guias, monta planos, otimiza tempo e recursos. E assim fiz. E curti muito.
Logo que a viagem se concretizou, começaram a surgir os vendilhões de mitos. Coisa de gente que nunca foi, ou que foi mas não soube aproveitar, por desconhecimento cultural, à cidade-luz.
Os mitos foram do ridículo ao improvável.
Um ridículo: as ciganas vão te cercar, em praça pública e, enquanto vc não der uns trocados para elas, não terá um pingo de sossego. Este caiu por terra, estrondosamente. Não vi uma cigana sequer... e olhe que fui a muitos lugares!
Outro ridículo: os franceses são sujos, não tomam banho, e andam mal-vestidos. Bastou sair, logo no primeiro dia à tarde, para ver como as mulheres (de todas as idades) e os homens são bem-vestidos, limpos, bonitos mesmos!
As mulheres, desde crianças de pouca idade, até senhoras em idade avançada, têm seus cabelos cortados e penteados, usam (as mocinhas e as mais velhas) pintura sob os olhos, carmim nos lábios, unhas bem pintadas... Onde estão os sujos, os mal-vestidos? Só na mente dos que olham e nada vêem.
Um improvável: os franceses hostilizam os turistas. Realmente, há uma hostilidade no ar, principalmente quando consideramos o sinônimo de hostil como sendo “provocante”. Veja no Aurélio, se tem dúvida.
Há muitas formas de ser provocante: pela beleza externa, pela cultura, pela inteligência...
além de outras. O francês é, realmente, hostil, pois nos provoca com seus sorrisos, com suas gentilezas, com seus comentários interessantes quando indicam um local, por sua elegância onipresente. Não consegui derrubar este mito, em minha interpretação aureliana da palavra hostil. Mas, o enterrei em sua acepção mais vulgar. Vulgaridade não combina com Paris, berço histórico da civilização e da cultura.
Outro mito que me venderam, temporariamente, enquanto ainda em terras brasilienses: os hotéis não têm banheiro com água, pois não se toma banho em Paris.
O hotel em que fiquei, embora de categoria turística simples, tinha um bom banheiro, com água quente a qualquer hora do dia ou da noite. Há quem tenha ido a hospedarias para estudantes - o velho problema de economizar os vinténs, que eu tanto abomino - e tenha sido privado de um bom banheiro.
Mas, Paris é eminentemente cosmopolita e, portanto, apresenta aspectos comuns a vários países. Então, há que ter hospedarias sem banhos quentes, como São Paulo, Rio ou Curitiba.
Julgar a cidade-luz por um detalhe menor é uma injustiça própria dos menores.
O próprio conceito de mito explica porque há os maldizentes que buscam apontar, adrede,
o que não conhecem, e não existem.
No começo do livro sétimo da República, Platão explica o processo pelo qual a alma humana passa da ignorância à verdade. Esse processo, também conhecido como mito da caverna, em filosofia, relaciona, não por acaso, como o ser humano pode transformar em verdade o que sua ignorância aceita, mesmo que seja algo irreal.
E tenho dito. Vive la France! Vive Paris!
