quarta-feira, 23 de abril de 2008

E porque não dissemos nada ...

E porque não dissemos nada ...

A Cidade Universitária é um contorno natural da Unicamp.

Assim, a quem trabalha ou estuda naquela universidade, nada mais natural que busque residir em suas proximidades.

Muitos professores e funcionários da Unicamp residem na Cidade Universitária.

O bairro, originalmente pouco ocupado, sempre procurou manter seu ar bucólico, com suas árvores frondosas espalhando sombras pelas casas e calçadas, mas principalmente pela quietude noturna, tão buscada por todos os seus moradores. Isso tornava a Cidade Universitária um raro e invejado exemplo de harmonia entre a civilidade e a cidadania.

Mas, a universidade cresceu, aumentou as vagas para alunos e nosso bairro paga, hoje, um alto preço pelo sucesso da Unicamp em formar mais e mais alunos.

O exemplo mais característico do alto preço que pagamos é a existência das assim chamadas “repúblicas”, residências do bairro cujos proprietários decidiram alugar para grupos de alunos da Unicamp.

Em contraste com as moradias, habitações coletivas construídas especialmente para colher alunos em apartamentos individuais, as repúblicas não têm administração alguma, pecam pela limpeza e suas fachadas mostram o total desprezo de seus moradores pela ordem e disciplina: lixeiras vazias e lixo acumulado ao redor delas, garrafas de bebidas alcoólicas atiradas nas calçadas, ausência de cuidado com plantas e chão, em geral, imundo.

Não se pode atribuir a culpa aos locadores, pois eles viram apenas uma oportunidade de obter recursos advindos do aluguel de seus imóveis. Todavia, alguns raros locadores passam em revista seus imóveis-repúblicas, fazem por sua conta a jardinagem, recolhem o lixo e prezam em retribuir ao bairro aquilo que o bairro deu a eles: a urbanidade.

Há casos de proprietários que solicitaram a devolução do imóvel, ao tomarem conhecimento da reviravolta que os alunos fazem, não apenas no imóvel, mas no bairro, como um todo.

Algumas repúblicas, e são mais do que se pensa, promovem, em plena quinta-feira, festas que começam às 10 horas da noite e vão, madrugada adentro, com sons infernais, alunos quase em coma alcoólica, e drogas, inevitavelmente.

Instrumentos de percussão, como baterias, marcam cada segundo dessas noites infernais, perturbando o sono de vizinhos que têm que trabalhar no dia seguinte. Mães com crianças de colo sentem de perto a irritação dos bebês, que acordam e não mais conseguem dormir.

Um ou outro vizinho – mas são raros – chama a viatura de policiamento do bairro para denunciar a quebra da conhecida (ao menos pelos cidadãos de bem) lei do silêncio, que não permite ruídos de alto nível entre 22 horas de um dia e 6 horas do dia subseqüente. A viatura vem, conversa com os baderneiros universitários, constata a presença de irregularidades, mas tudo fica por aí.

Os policiais afirmam que não podem agir de outra forma, que lhes falta autoridade para enquadrar na lei os futuros bacharéis da famosa Unicamp.

E a cada dia, novas repúblicas surgem, várias se tornando, em curto prazo, outro centro de desrespeito agressivo aos nossos direitos, como cidadãos honrados, respeitadores de seus pares, e desejosos de manter o bairro dentro de seus padrões originais.

O poeta russo Vladimir Maiakovski (1893-1930) escreveu:

Na primeira noite eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim e não dizemos nada.

Na segunda noite já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada.

Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E, porque não dissemos nada, já nada podemos dizer “.

Está retratada a situação na Cidade Universitária.

Mas ainda podemos dizer alguma coisa.

Podemos pedir à sub-prefeitura que ative o policiamento do bairro, mas dando a eles a força legal que precisam para conter o ímpeto dos futuros profissionais liberais formados pela prestigiada universidade. Podemos, mesmo, identificar os locatários das repúblicas incontidas e abrir processo de queixa por violação da lei do silêncio. Podemos ir até as repúblicas, em plena orgia romana, e solicitar que parem com o som altíssimo, que refreiem seus instintos de homens e mulheres das cavernas, interrompendo o socar de tambores, os gritos estridentes sem sentido, a orgia com vítimas do “efeito irmandade”, que faz com que jovens vindos de famílias sérias e honradas, se embriaguem noites e noites, até que se formem, para poder usufruir o direito de “ser um deles”.

Outros preferem se calar, compactuando, pela omissão, com as badernas estudantis.

Como diz o poeta russo, “... e porque não dissemos nada, já nada podemos dizer”.

Este texto é um grito de alerta para quem quer – e precisa – do antigo “modus vivendi” da Cidade Universitária. Processar um aluno maior é mais fácil do que se imagina, e tem efeito maior do que se espera. É um direito do cidadão honesto (Código Civil, Dos Direitos de Vizinhança - Artigo 1277).

O Juizado de Pequenas Causas acolhe, sem custo financeiro, sem advogado. Mas, tudo deve começar com um Boletim de Ocorrência, feito ali na delegacia de Barão, atrás do Terminal de ônibus, mesmo durante a noite da orgia estudantil, e com um outro vizinho como testemunha.

Há um posto do Juizado de Pequenas Causas no Liceu Na. Sra. Auxiliadora, funcionando às segundas-feiras à tarde, e outro no Supermercado Extra da Rua da Abolição, fone 3776-4030. Basta levar o endereço da "república". As ações têm que ser individuais, mas vários vizinhos podem entrar com a mesma ação, simultaneamente, o que angaria maior atenção dos juízes.