Nosso idioma é muito rico em palavras, e isso faz com que algumas delas fiquem silenciosamente enfiadas no baú do esquecimento.
Alguns literatos gostam de ressuscitar velhas palavras, principalmente em poesias, acreditando, talvez, que isso valorize suas escritas, o que não é uma verdade absoluta. Há, entre eles, os literatiços de última hora, também.
Mas, todos os que escrevem, sempre tentam trazer à luz algumas palavras de sua preferência.
Eu, por exemplo, deixei crescer barba e bigode.
Até aí, nada de novo. Muitos fazem isso por algum motivo qualquer.
Mas eu vi, nisso, meio sem querer, uma chance de acender uma luz sobre um verbo que fica anos e anos jogado no fundo do baú do idioma.
Trata-se do verbo cofiar, sujo significado, segundo o Aurélio, é: alisar, afagar (a barba, o bigode, o cabelo), passando a mão por eles.
Ora, se não se tem barba e bigode, uma boa parte do campo de ação do verbo cofiar fica prejudicada, restando apenas o cabelo.
Cofiar o cabelo não tem o mesmo sabor, a mesa ênfase, a mesma magia de cofiar a barba, ou o bigode.
Só quem tem barba longa e bigode sabe disso.
Ao cofiar, passamos a terceiros a imagem de pensador. Pois só um pensador tem esse gesto, quando se põe a meditar sobre algum assunto.
Ao cofiar, passamos a imagem de sabedoria. A maioria dos filósofos antigos, e até alguns aí da Unicamp, têm barba e bigode que cofiam, sem perceber, quando estão a meio de um processo interno de pensar com sabedoria.
Os muito jovens, em grande parte ainda imberbes, ou com barba anunciada, mas não publicada, ainda não têm sabedoria acumulada, que vem com o tempo. Portanto, não cofiam.
Sem querer abrir polêmica com as mulheres, muitas a quem atribuo um lato senso de profundidade e sabedoria, elas não cofiam, pois não foram beneficiadas com a dádiva da barba e do bigode.
Umas até têm certo buço, que as aflige. Mas, não é nada que se possa cofiar. Até procuram extirpá-los, pouco interessadas no apoio que poderiam dar a seus pensamentos mais complexos, ao cofiá-los, por menores que fossem.
Começo a acreditar que os antigos pensadores tinham longas barbas e bigodes para poderem fervilhar suas idéias, enquanto as cofiavam.
Acredito ter trazido à luz o verbo cofiar, embora sua visita ao mundo externo do baú do esquecimento seja muito efêmera.
