quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Paris: derrubando mitos


Fui a Paris, alguns dias atrás.
Muita gente vai, eu sei. Mas, fui para tornar realidade um sonho de juventude.
Doze anos em escola da colônia francesa em São Paulo (o Liceu Pasteur, na Vila Mariana), mais dois na Aliança Francesa, somados às dúzias de posters pendurados nas paredes de toda e cada sala de aula. Isso cria uma vontade doida de ir conhecer Paris, garanto!
Sou do tipo que lê antes sobre o destino, compra guias, monta planos, otimiza tempo e recursos. E assim fiz. E curti muito.
Logo que a viagem se concretizou, começaram a surgir os vendilhões de mitos. Coisa de gente que nunca foi, ou que foi mas não soube aproveitar, por desconhecimento cultural, à cidade-luz.
Os mitos foram do ridículo ao improvável.
Um ridículo: as ciganas vão te cercar, em praça pública e, enquanto vc não der uns trocados para elas, não terá um pingo de sossego. Este caiu por terra, estrondosamente. Não vi uma cigana sequer... e olhe que fui a muitos lugares!
Outro ridículo: os franceses são sujos, não tomam banho, e andam mal-vestidos. Bastou sair, logo no primeiro dia à tarde, para ver como as mulheres (de todas as idades) e os homens são bem-vestidos, limpos, bonitos mesmos!
As mulheres, desde crianças de pouca idade, até senhoras em idade avançada, têm seus cabelos cortados e penteados, usam (as mocinhas e as mais velhas) pintura sob os olhos, carmim nos lábios, unhas bem pintadas... Onde estão os sujos, os mal-vestidos? Só na mente dos que olham e nada vêem.
Um improvável: os franceses hostilizam os turistas. Realmente, há uma hostilidade no ar, principalmente quando consideramos o sinônimo de hostil como sendo “provocante”. Veja no Aurélio, se tem dúvida.
Há muitas formas de ser provocante: pela beleza externa, pela cultura, pela inteligência...
além de outras. O francês é, realmente, hostil, pois nos provoca com seus sorrisos, com suas gentilezas, com seus comentários interessantes quando indicam um local, por sua elegância onipresente. Não consegui derrubar este mito, em minha interpretação aureliana da palavra hostil. Mas, o enterrei em sua acepção mais vulgar. Vulgaridade não combina com Paris, berço histórico da civilização e da cultura.
Outro mito que me venderam, temporariamente, enquanto ainda em terras brasilienses: os hotéis não têm banheiro com água, pois não se toma banho em Paris.
O hotel em que fiquei, embora de categoria turística simples, tinha um bom banheiro, com água quente a qualquer hora do dia ou da noite. Há quem tenha ido a hospedarias para estudantes - o velho problema de economizar os vinténs, que eu tanto abomino - e tenha sido privado de um bom banheiro.
Mas, Paris é eminentemente cosmopolita e, portanto, apresenta aspectos comuns a vários países. Então, há que ter hospedarias sem banhos quentes, como São Paulo, Rio ou Curitiba.
Julgar a cidade-luz por um detalhe menor é uma injustiça própria dos menores.
O próprio conceito de mito explica porque há os maldizentes que buscam apontar, adrede,
o que não conhecem, e não existem.
No começo do livro sétimo da República, Platão explica o processo pelo qual a alma humana passa da ignorância à verdade. Esse processo, também conhecido como mito da caverna, em filosofia, relaciona, não por acaso, como o ser humano pode transformar em verdade o que sua ignorância aceita, mesmo que seja algo irreal.
E tenho dito. Vive la France! Vive Paris!

5 comentários:

milu leite disse...

oi, jolac. cheguei até aqui pelo blog da laura, que tive o prazer de conhecer ontem.
quero dizer que também fui a Paris concretizar um sonho de juventude, mas isso foi muito tempo atrás.as minhas impressões, no entanto, permanecem e coincidem com as tuas.
não senti hostilidade (não mais do que a que já experimentei em outras cidades), fui bem acolhida, meus olhos gostaram do que viram, minha boca adorou o que comeu e bebeu.:)
abs

Jolac disse...

Oi, Milu
O fato de ser amiga da Laura já a diferencia, prezada Milu. Vc deve ter visto Paris como eu a vi: esplendorosa, cheia de histórias, cada canto lembrando um intelectual, cada parede como testemunha de conquistas, de heroismo e de vitórias. Mas, sem a leitura, o conhecimento prévio, Paris pode ser vista como apenas uma outra cidade... coisa que jamais será!
Obrigado por sua nota.

Jolac disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Laurinha disse...

Querido Lacerda! Que bom saber que mantém o blog ativo! Adorei o texto e concordo com ele: Paris tem muito a nos ensinar. O único mito que não consegui desfazer durante minha breve passagem é o da cidade cara. Em nenhum outro lugar comi um misto quente por 10 euros. Mas cada cidade tem seus porens: São Paulo tem o trânsito, Floripa tem barcos 911 desgovernados, Rio de Janeiro...
Enfim! Que felicidade saber que vocÊ aproveitou muito. Espero que não tenha deixado de conhecer o Musee d'orsay. Quase tive um piripaque naquele mesanino cheio de esculturas do Rodin. Beijo grande da amiga de sempre - apesar de um pouco ausente...

Jolac disse...

Oi, Laurinha amiga meio sumida do mapa!
Sim, claro que fui ao D"Orsay!
E ao Louvre, e ao Pompidou...
Também achei Paris meio cara, principalmente na Champs-Elysèes. Mas, o que é o dinheiro senão uma forma de chegarmos ao prazer de conhecer?
Não suma! Tenho lido seu blog e visto suas fotos (excelentes!).
Um abraço saudoso.