Desde muito tempo existem as assim chamadas “correntes”, que nada mais são do que mensagens passadas de pessoa a pessoa, pedindo alguma coisa, ou informando sobre determinado assunto.
Jornais antigos, aqui no Brasil, se consultados, vão mostrar inserções feitas por alguém solicitando algo e pedindo que, ao ler, o leitor passasse adiante o que ali se pedia.
Lembro de certas correntes da época: mulher pedindo que o marido fujão voltasse para casa, mocinha jovem pedindo que o Fulano a pedisse para namorar (o atual “ficar”), mãe pedindo pela cura do filho. E, sempre se pedia que a mensagem fosse repassada a alguém. Daí o nome corrente, sendo cada leitor um elo dela.
Nunca soube dos resultados dessas antigas correntes. E jamais passei qualquer uma delas adiante. Questão de princípio.
Mas, aquela antiga corrente publicada nos classificados dos jornais se travestiu e, hoje, revigorada, domina a rede mundial denominada Internet.
Eu recebo algumas correntes diárias, vindas, em geral, de amigos ou conhecidos que têm, por algum motivo, o meu endereço de mensagens.
As correntes, hoje, são mais incisivas, exigentes, ameaçadoras. Ontem, recebi uma que solicitava uma “reza brava para eliminar mal olhado” posto por alguém no filho de um conhecido. E me ameaçava, no final: “se você não passar isso adiante, sua sogra virá morar com você, para sempre, infernizando a sua vida!”. Não me preocupei, é claro. Até porque minha sogra já faleceu.
Outra, recebida ano passado, contava a história de um homem que pediu dinheiro a um amigo e, no final, jogou uma praga – daquelas bem temidas – caso não fosse atendido, ou caso a mensagem não fosse repassada para 100 pessoas. Sempre, é claro, tendo ele como beneficiado. É, o desemprego vem obrigando alguns a usar mais da criatividade. E, se eu não repassasse, meu terceiro filho ficaria doente. Tenho apenas dois filhos, logo estou isento de pragas desse tipo.
Uma professora conhecida me enviou uma corrente onde pede que determinados alunos sejam atingidos por meus pensamentos e mudem de escola. Se eu não fizer isso, meus filhos não terminarão os estudos. Os meus já estão formados há muito tempo, logo estou imune a essa praga. Os alunos de hoje não se emendam, nem com corrente desse tipo.
Acho incrível como pessoas – que reputo inteligentes e saudáveis – acreditam em correntes pela Internet, repassando as que recebem, temerosas de seus efeitos fatais.
É de se supor que esses “correntistas” realmente acreditam nas conseqüências da interrupção da corrente e, assim, despejam em nossas telas os seus temores.
Não vi ainda, entretanto, corrente para pressionar senadores corruptos a entregarem seus mandatos, corrente para donos de empreiteiras que fraudam licitações públicas perderem suas empresas ou corrente para punir os que superfaturam obras públicas. Se, realmente, as pragas contidas nas correntes da Internet funcionassem, alguém já teria enviado alguma dessas correntes aqui citadas.
Enquanto isso, vou continuar abrindo indesejáveis correntes diárias, enviadas por amigos ou conhecidos. Uma praga que a Internet roubou dos classificados de jornais e para a qual ainda não há defensivo conhecido.
