terça-feira, 24 de julho de 2007

Correntes e suas pragas

Desde muito tempo existem as assim chamadas “correntes”, que nada mais são do que mensagens passadas de pessoa a pessoa, pedindo alguma coisa, ou informando sobre determinado assunto.

Jornais antigos, aqui no Brasil, se consultados, vão mostrar inserções feitas por alguém solicitando algo e pedindo que, ao ler, o leitor passasse adiante o que ali se pedia.

Lembro de certas correntes da época: mulher pedindo que o marido fujão voltasse para casa, mocinha jovem pedindo que o Fulano a pedisse para namorar (o atual “ficar”), mãe pedindo pela cura do filho. E, sempre se pedia que a mensagem fosse repassada a alguém. Daí o nome corrente, sendo cada leitor um elo dela.

Nunca soube dos resultados dessas antigas correntes. E jamais passei qualquer uma delas adiante. Questão de princípio.

Mas, aquela antiga corrente publicada nos classificados dos jornais se travestiu e, hoje, revigorada, domina a rede mundial denominada Internet.

Eu recebo algumas correntes diárias, vindas, em geral, de amigos ou conhecidos que têm, por algum motivo, o meu endereço de mensagens.

As correntes, hoje, são mais incisivas, exigentes, ameaçadoras. Ontem, recebi uma que solicitava uma “reza brava para eliminar mal olhado” posto por alguém no filho de um conhecido. E me ameaçava, no final: “se você não passar isso adiante, sua sogra virá morar com você, para sempre, infernizando a sua vida!”. Não me preocupei, é claro. Até porque minha sogra já faleceu.

Outra, recebida ano passado, contava a história de um homem que pediu dinheiro a um amigo e, no final, jogou uma praga – daquelas bem temidas – caso não fosse atendido, ou caso a mensagem não fosse repassada para 100 pessoas. Sempre, é claro, tendo ele como beneficiado. É, o desemprego vem obrigando alguns a usar mais da criatividade. E, se eu não repassasse, meu terceiro filho ficaria doente. Tenho apenas dois filhos, logo estou isento de pragas desse tipo.

Uma professora conhecida me enviou uma corrente onde pede que determinados alunos sejam atingidos por meus pensamentos e mudem de escola. Se eu não fizer isso, meus filhos não terminarão os estudos. Os meus já estão formados há muito tempo, logo estou imune a essa praga. Os alunos de hoje não se emendam, nem com corrente desse tipo.

Acho incrível como pessoas – que reputo inteligentes e saudáveis – acreditam em correntes pela Internet, repassando as que recebem, temerosas de seus efeitos fatais.

É de se supor que esses “correntistas” realmente acreditam nas conseqüências da interrupção da corrente e, assim, despejam em nossas telas os seus temores.

Não vi ainda, entretanto, corrente para pressionar senadores corruptos a entregarem seus mandatos, corrente para donos de empreiteiras que fraudam licitações públicas perderem suas empresas ou corrente para punir os que superfaturam obras públicas. Se, realmente, as pragas contidas nas correntes da Internet funcionassem, alguém já teria enviado alguma dessas correntes aqui citadas.

Enquanto isso, vou continuar abrindo indesejáveis correntes diárias, enviadas por amigos ou conhecidos. Uma praga que a Internet roubou dos classificados de jornais e para a qual ainda não há defensivo conhecido.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Pan! Pan! E bala perdida...

A poucos dias da abertura dos Jogos Pan-americanos, mais conhecidos por seu apelido Pan, temo pelos 5.662 atletas que deles participarão.

Há, hoje, uma operação de guerra na Favela do Alemão onde 1.350 homens vêm lutando contra bandidos ligados ao tráfico de drogas. E, após 57 dias desde o início da operação, a força-tarefa avançou única e tão somente 3 quilômetros, a partir do local definido como sendo a entrada da citada favela. Um resultado pífio, se considerarmos que o armamento usado pelos homens da lei é pesado em termos de efeitos, e que ainda não conseguiram prender os líderes do tráfico local.

Foram contados 19 mortos, em levantamento recente, mas esse número poderá subir a patamares maiores quando se entrar efetivamente no cerne da favela. E, muito provavelmente, a maioria dos mortos será composta por moradores sem ligação com o crime organizado.

Pode-se imaginar uma cidade com disputas esportivas, de um lado, e policiais de outro.

Lendo matéria sobre os “bandidos de elite” que massacraram a doméstica trabalhadora na Barra da Tijuca, na mesma cidade do Pan, fiquei sabendo que um dos “rapazes-carrascos”, o Rodrigo, recém chegado de uma temporada de sete meses na Austrália, onde estudou inglês, está selecionado para trabalhar na equipe de apoio do Pan.

É evidente que quem o selecionou não sabia de seus instintos criminosos, embora ele pertença a um grupo de “homens” que atacam mulheres, nas noites cariocas. Mas, a verdade é que, se não fosse preso pelo massacre da Sirlei, este jovem lá estaria para apoiar os atletas do Pan.

Surge a natural pergunta: e se houver outros “rodrigos” infiltrados no Pan?

Coitados dos atletas que estão chegando, sem nada saber sobre o que corre nos bastidores da assim chamada “cidade maravilhosa”.

Os fundistas talvez tenham que correr velozmente dos motoqueiros que atiram nos policiais. As varas para saltos poderão manter os punguistas afastados dos bolsos dos atletas. Martelos poderão ser arremessados contra crianças e adolescentes que fazem os “arrastões” nas praias de Copacabana e Ipanema. A equipe de caratê poderá enfrentar os marmanjos de plantão nas portas dos estádios, à espera de oportunidades para o saque do momento.

A equipe de esgrima poderá se valer de seus floretes pontiagudos. A de natação se valerá das águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, ou do mar, para uma fuga oportuna.

A Daiane dos Santos terá que, em plena rua, dar um de seus famosos saltos mortais duplos carpados, passando sobre gangues de pivetes com estiletes em punho.

A equipe de hipismo, mais privilegiada para saídas estratégicas, galopará sem freios pelas ruas vizinhas do Complexo Esportivo Deodoro, onde deveriam estar apenas competindo com outros atletas, e não com a bandidagem.

Já o Tiro com Arco não poderá se defender das armas de fogo de última geração, trazidas do Paraguai sob fardos de feno inocentes, em caminhões de aparência séria. Vamos orar por eles!

É! Acho que muitas equipes não terão facilidade em se livrar dos momentos de insegurança durante o Pan. Algumas apenas poderão ouvir o pan! pan! pan! dos tiros da polícia e dos bandidos do Alemão, enquanto competem pelo primeiro lugar em suas modalidades.

O esporte – privilégio de poucos – apresentando no palco do Pan o que tem de melhor, e tendo como pano de fundo a violência – privilégio de muitos - cada um em seu campo de ação, tal como no esporte.