terça-feira, 19 de junho de 2007

Essas crianças tão impertinentes

No dia 9 de setembro de 2003, quase quatro anos passados, a assessoria de imprensa do Congresso Nacional divulgou uma “invasão” de crianças àquela casa, “num ato para reivindicar ações mais efetivas no combate ao trabalho infantil doméstico”.

Foi montado um gigantesco cata-vento defronte o Congresso, símbolo mundial de luta pela erradicação do trabalho infantil.

E lá estava, toda sorridente, a senadora Patrícia Saboya Gomes do PPS do Ceará, na qualidade de Coordenadora da Frente Popular pelos Direitos da Infância e da Adolescência, que recebeu as crianças de braços abertos.

Frente ao Presidente da Câmara na época, o Deputado João Paulo Cunha do PT de São Paulo, as crianças entregaram àquele político a Carta de Cartagena, um compromisso assinado por 13 países da América Latina para a luta contra o trabalho infantil doméstico.

A citada senadora Patrícia Saboya Gomes comentou, na época, que “o documento apresentando nesse encontro mostra que o que essas meninas e meninos mais querem é ter o direito de ser feliz e viver a infância. São coisas tão simples de resolver, mas é triste perceber que ainda não conseguimos saldar essa dívida”.

Pois não é que no dia 14 de junho de 2007, o Jornal Nacional mostra que um outro grupo de crianças e adolescentes repete o ato de 2003, e nas portas do Congresso Nacional, pedem, como se fora por vez primeira, o mesmo que pediram antes: o fim do trabalho infantil.

E foram recebidos pela mesma sorridente senadora Patrícia Saboya Gomes, agora mudada, de mala e cuia, para o PSB do Ceará. Desta feita, a eficiente senadora declarou: "Se o depoimento de uma criança não é ouvido, eu não sei mais o que pode ser ouvido nesse País".

Em 2003, o IBGE informou que 494 mil crianças e adolescentes abaixo de 17 anos trabalhavam, no Brasil, segundo levantamento feito em 2001.

Agora, fala-se em 3 milhões de crianças trabalhando. Deixando de lado qualquer erro estatístico, a verdade é que a senadora citada aí acima parece ter memória muito curta, ou ser o que se convencionou denominar de “cara de pau”, pois não mexeu uma palha para fazer valer a sua Frente Popular pelos Direitos da Infância e da Adolescência, nesses quase quatro anos que medeiam as duas manifestações das crianças, e ainda tem o despudor de achar que o depoimento de uma criança não é ouvido, quando a ela caberia ser o maior ouvidor delas.

Não são apenas os grandes figurões do planalto que se empenham em dizer frases de efeito na frente das câmeras de televisão, sem ter qualquer compromisso com o que dizem. Começou a “era das patricinhas” na capital federal.

Todos nós, brasileiros, sabemos que temos memória curta, mas a Internet nos permite acesso, a qualquer tempo e em qualquer lugar, aos arquivos de grandes jornais e revistas. Assim, nada mais fácil do que confrontar as duas “invasões” para se chegar à conclusão que as pobres crianças invadiram um reino de papelão, onde muros e castelos são apenas fachadas para esconder a verdade. Não há ninguém preocupado com os 3 milhões de crianças que trabalham.

Se a “invasão” dos infantes for um fenômeno cíclico, em 2011 teremos nova ação e, provavelmente, a mesma senadora Patrícia Saboya, talvez bandeada para um terceiro partido, com outra frase bombástica para a televisão.

O sorriso será o mesmo, assim como os resultados práticos de sua ação parlamentar: nada!

Pobres crianças trabalhadoras! Mobilização geral a cada quadriênio para ver um sorriso fictício na face de um senador da república que, certamente, continuará nada fazendo por elas.

As férias de julho

Vai acabando o mês de junho e as cidades – principalmente as grandes – vão se acalmando, aos poucos. É o prenúncio das férias escolares.

A química do cidadão urbano muda no mês de julho. Comece a notar.

O trânsito, principalmente defronte as escolas – e em especial no Rio Branco, aqui de Barão – caótico por natureza, nos períodos letivos, chega a ficar ridiculamente fraco. Nada de mães que, em suas "vans" poderosas, deixam as 4 portas do veículo abertas, no meio da rua, enquanto arrumam a gola do uniforme do filho menor, fecham a lancheira da filha do meio e dão um dinheiro trocado para o mais velho pagar os lanches, na hora do recreio. Enquanto essa insólita cena doméstica se desenrola, dezenas de outros carros, sempre pilotados por mães apressadas, buzinam, exigindo que aquela "van" saia do caminho. Até parece que não lembram de ter feito o mesmo, alguns metros mais atrás!

As academias, outra fonte de problemas de trânsito, ficam meio às moscas, pois as adolescentes, e os candidatos a adultos do sexo masculino, já foram para as montanhas, ou para as praias.

Os shoppings, nos primeiros dias de julho, ainda apresentam um certo movimento. Nem todos viajam logo no início do mês. Mas, à medida que o mês avança, vão ficando tranqüilos, sem aquele ruído de "adolescentessauros" característico dos meses letivos.

Sim, não há nada melhor que férias em cidades grandes.

Mas, como nada é perfeito, ficam os que não viajam e só perturbam as quietas ruas dos bairros. É a "pelada" sob nossa janela, as guitarras mal tocadas nas garagens dos vizinhos (já notaram que nunca é na nossa?), as festinhas com "rock pauleira" em alto som, os cachorros, antes acostumados a dormir cedo, latindo e uivando, como pano de fundo dessa colorida festa de férias.

Professores se queixam de que os alunos voltam para as aulas, em agosto, sem um pingo de educação. Mais um efeito colateral das férias, para o qual ainda não se descobriu um remédio.

Talvez o gozo exagerado da suposta liberdade das férias escolares, faça com que os alunos voltem aos bancos de ensino com o conceito de que "o mundo é deles". Portanto, tudo podem fazer, inclusive perturbar as aulas e os professores:

- "Carlinhos, pare de falar e preste atenção à minha aula!"

- "Dá, não, tia Bia! Ainda não voltei de férias. Tem que dar um tempo para eu me acostumar!"

A contrapartida do sossego relativo nas grandes cidades, durante as férias de julho, é a confusão generalizada nas cidades praianas. Você já foi a Ubatuba em julho?

Bares, restaurantes e lanchonetes abarrotados de cravos, espinhas, acnes, bermudão no meio da canela, camisetas regatas, tatuagens de gosto relativo, pulseirinhas de prata, óculos escuros colossais, saídas de praia, biquínis reduzidos, e sabe mais lá o quê!

Carros andando sem destino, à média de 15 quilômetros por hora. De Fuscas azul-calcinha (nem todos são ricos, mas todos vão à praia), a BMWs emprestados pelo pai, que dorme, em casa, o sono dos justos.

Carrinhos de camelôs às centenas, vendem de tudo, da bijuteria ao chá espanta-espinha, muito procurado por jovens de caras marcadas. Os preços variam, conforme as tendências de mercado. Explicando: são altos, no início de julho e despencam nos últimos dias do mês. Camelô não precisa de MBA para agir segundo a demanda.

Praias com todos os tipos de lixo social, desses criados pela nossa despreparada sociedade urbana. Pets, latas de refrigerantes e de cervejas, canudos e copos de plástico, coco natural vazio, sandálias havaianas esquecidas, fraldas usadas e com seu conteúdo conhecido, dentaduras, lenços de papel, marmitex, e... centenas de outros itens.

Crianças ingênuas nadando – ou tentando nadar – sob as placas de aviso que o lugar é perigoso. Terceira idade roncando sob guarda-sóis antigos, com os dizeres: Diretas Já, ou Hepacholam Xavier.

Cães de raça e outros vira-latas circulam sobre a areia, felizes pelo aumento eventual de seus banheiros domésticos. Agora podem fazer de tudo, sólido ou líquido, em toda aquela beleza de praia imensa, sem que seus donos os amolem.

Senhoras de cintura avolumada simulam corrida, quase que justificando, para os que estão na praia, ter consciência de suas barriguinhas mas que já estão cuidando para reduzi-las. Siliconadas desfilando seus últimos enxertos, fazendo inveja às amigas que ainda não tiveram coragem.

É. O melhor mesmo é ficar na cidade grande. Curtir o mês de julho, tomar um chope geladinho naquele bar sempre lotado durante as aulas, ir ao shopping e ter tempo para olhar vitrines, escolher o que quer, estacionar próximo a uma porta de entrada, entrar numa livraria e ler uma "Paris Match", o "Le Nouvel Observateur", ou mesmo uma "Newsweek".

Viva o mês das férias!

sábado, 2 de junho de 2007

Lavando as escadarias de Brasília

Todo ano os soteropolitanos católicos vão lavar as escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim. Dizem os historiadores que o ato de lavar representa um agradecimento dos fiéis por graças alcançadas.

Religiões à parte, o ato de lavar tem uma conotação um pouco diferente quando se trata de algum problema ligado à honra, ou à justiça. Lavar a honra, por exemplo, significa reconstituir a imagem de alguém atingido por alguma infâmia, de expurgar possíveis nódoas indevidas na vida de alguém. Em termos de justiça, embora não conste como termo legal, lavar pode significar reabilitar, voltar ao estado anterior a alguma injúria ou difamação.

Com o termo lavar em mente, vamos até Brasília, nossa capital federal, de ruas e avenidas com linhas bem traçadas, mas que, nem por isso faz com que todos andem na linha.

A cada semana lemos, na mídia, um novo escândalo ligado a políticos ou a funcionários do primeiro escalão do governo.

A Polícia Federal nunca neste país – parafraseando alguém da cúpula – prendeu tanta gente envolvida em atos supostos de corrupção, e a justiça, nunca neste país, soltou tantos presos envolvidos em escândalos de uso indevido do dinheiro público.

E é justamente esse vai-e-vem de mandos e desmandos que deixa a todos surpresos e não entendendo mais o que seja a lei e a justiça.

Está na mente do brasileiro que a lei tem que ser cumprida – e assim entende a Polícia Federal – e que a justiça tem que ser feita, sem discriminação, pela aplicação da lei. Ora, se a Polícia Federal prende e a justiça solta, com alegações nem sempre justificadas, ou entendidas pelos brasileiros, há um flagrante desacerto entre as duas casas que, juntas, deveriam zelar pelos bons costumes, punindo os crimes contra o Estado, como o desvio de verbas vultuosas manipuladas por lobistas junto a homens do governo e junto a políticos influentes.

Ao abrir uma revista semanal, já no final da manhã de cada sábado, deparamos com novos e novos fatos ligados à corrupção dentro do governo. Ministros são afastados, Juízes entram em licença para tratamento de saúde quando acusados, começa o agito das prisões, anda a enorme fila de carros negros com o PF estampado em cada porta, descem deles donos de empreiteiras e lobistas, carregam-se inúmeros computadores, há sacos de dinheiro em reais, e outros em dólares, todos ficamos chocados com isso, e aí vem a justiça e manda soltar diversos presos.

Está ficando cada vez mais complicado ser um brasileiro comum. Temos que acompanhar de perto cada novo escândalo e, ainda assim, corremos o risco de nada entender, de se achar menos inteligente por não conseguir aceitar os atos conflitantes vindo do mesmo governo.

Um ministro japonês, apanhado em flagrante caso de corrupção, se suicidou. Na

China há casos de execução sumária de pessoas que fraudaram algum documento, ou desviaram algum recurso público em benefício próprio.

Não queremos a pena de morte, queremos apenas voltar a ser brasileiros comuns. Queremos ver culpados punidos e presos, em curto espaço de tempo. Queremos ver ações do governo no sentido de escolher melhor os seus ministros, para não vê-los, pouco após a posse, envolvidos em casos de corrupção.

O tempo se escoa, nada se vê de concreto em termos de punição, ouve-se comentários sobre a necessidade das reformas políticas e do judiciário, o segundo mandato já avança a passos largos e o Brasil não parece sentir vergonha de sua triste figura de país com tantos criminosos chafurdando na lama da desonestidade.

Por favor, autoridades deste país. Deixem-nos ser apenas brasileiros comuns. Lavem a lama das escadarias de Brasília e ficaremos muito gratos por essa graça alcançada.

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