No dia 9 de setembro de 2003, quase quatro anos passados, a assessoria de imprensa do Congresso Nacional divulgou uma “invasão” de crianças àquela casa, “num ato para reivindicar ações mais efetivas no combate ao trabalho infantil doméstico”.
Foi montado um gigantesco cata-vento defronte o Congresso, símbolo mundial de luta pela erradicação do trabalho infantil.
E lá estava, toda sorridente, a senadora Patrícia Saboya Gomes do PPS do Ceará, na qualidade de Coordenadora da Frente Popular pelos Direitos da Infância e da Adolescência, que recebeu as crianças de braços abertos.
Frente ao Presidente da Câmara na época, o Deputado João Paulo Cunha do PT de São Paulo, as crianças entregaram àquele político a Carta de Cartagena, um compromisso assinado por 13 países da América Latina para a luta contra o trabalho infantil doméstico.
A citada senadora Patrícia Saboya Gomes comentou, na época, que “o documento apresentando nesse encontro mostra que o que essas meninas e meninos mais querem é ter o direito de ser feliz e viver a infância. São coisas tão simples de resolver, mas é triste perceber que ainda não conseguimos saldar essa dívida”.
Pois não é que no dia 14 de junho de 2007, o Jornal Nacional mostra que um outro grupo de crianças e adolescentes repete o ato de 2003, e nas portas do Congresso Nacional, pedem, como se fora por vez primeira, o mesmo que pediram antes: o fim do trabalho infantil.
E foram recebidos pela mesma sorridente senadora Patrícia Saboya Gomes, agora mudada, de mala e cuia, para o PSB do Ceará. Desta feita, a eficiente senadora declarou: "Se o depoimento de uma criança não é ouvido, eu não sei mais o que pode ser ouvido nesse País".
Em 2003, o IBGE informou que 494 mil crianças e adolescentes abaixo de 17 anos trabalhavam, no Brasil, segundo levantamento feito em 2001.
Agora, fala-se em 3 milhões de crianças trabalhando. Deixando de lado qualquer erro estatístico, a verdade é que a senadora citada aí acima parece ter memória muito curta, ou ser o que se convencionou denominar de “cara de pau”, pois não mexeu uma palha para fazer valer a sua Frente Popular pelos Direitos da Infância e da Adolescência, nesses quase quatro anos que medeiam as duas manifestações das crianças, e ainda tem o despudor de achar que o depoimento de uma criança não é ouvido, quando a ela caberia ser o maior ouvidor delas.
Não são apenas os grandes figurões do planalto que se empenham em dizer frases de efeito na frente das câmeras de televisão, sem ter qualquer compromisso com o que dizem. Começou a “era das patricinhas” na capital federal.
Todos nós, brasileiros, sabemos que temos memória curta, mas a Internet nos permite acesso, a qualquer tempo e em qualquer lugar, aos arquivos de grandes jornais e revistas. Assim, nada mais fácil do que confrontar as duas “invasões” para se chegar à conclusão que as pobres crianças invadiram um reino de papelão, onde muros e castelos são apenas fachadas para esconder a verdade. Não há ninguém preocupado com os 3 milhões de crianças que trabalham.
Se a “invasão” dos infantes for um fenômeno cíclico, em 2011 teremos nova ação e, provavelmente, a mesma senadora Patrícia Saboya, talvez bandeada para um terceiro partido, com outra frase bombástica para a televisão.
O sorriso será o mesmo, assim como os resultados práticos de sua ação parlamentar: nada!
Pobres crianças trabalhadoras! Mobilização geral a cada quadriênio para ver um sorriso fictício na face de um senador da república que, certamente, continuará nada fazendo por elas.
