Nestas férias de início de ano fui parar, por engano, na República Dominicana. O que, a princípio, pareceu um drama, se converteu em experiência ímpar, da qual jamais esquecerei.
A meta era Cancún, no México, mas por falta de vistos de entrada, trocamos de rota e fomos os três para a RD (eu, mulher e filha).
Não vou falar aqui das surpresas todas. Apenas de uma: o super-hotel onde ficamos tinha uma praia onde se permitia o topless. Ao descobrir esse fato, não poderia deixar de registrar minhas impressões de novato, ali chegando sem aviso prévio.
Achei que poderia tratar do assunto com certo apuro, sem descambar para a vulgaridade, e fiz uma crônica, que segue. Tive o cuidado de não mencionar qualquer dos substantivos que o povo usa para denominar o par de glândulas femininas que todos nós - os pudicos aí inclusos - vimos e usamos como alimento, após o nascimento.
O título é o lá de cima "Penduricalhos" e logo o leitor verá a que ele se refere. Leia.
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Duplos, maiores ou menores. Uns médios, outros quase sumindo. Em comum, a duplicidade e a lei da gravidade. Esta última, inflexível, aplicada a todos, por igual, embora alguns dela se valham mais que outros.
Todos de olhares baixos, voltados para a areia escaldante da praia do Caribe, quietos, comportados, fingindo que ninguém os observava. Tímidos, talvez.
Uns, orientais, se colocavam em seus devidos lugares, não ousando se destacar, mal se afastando do tórax, diminutos, mal apercebidos, compenetrados de seus DNAs seculares.
Já outros, mais latinos, exuberavam, alegres, contentes com o tamanho garantido pela ascendência romana, que motivaram os Césares. Sofia, a Loren, ainda os tem como referência.
A cada onda morrendo na praia, outro par se juntava ao bando ali exposto. Chegavam suarentos pela caminhada, desde os alojamentos distantes, pingos hesitantes em cair, se acumulando no topo, quais crianças em tobogãs da Disney, esperando sua vez de se projetar, ladeira abaixo.
Outros pares, mais preguiçosos, se apoiavam nos abdômens avantajados, usando-os como amparo permanente. Nem se preocupavam em olhar para cima, limitando-se a contar conchas na areia branca da praia.
Certos pares demonstravam haver um clima ruim no relacionamento. Isso ficava evidente quando se notava que um pendia para um lado, enquanto o outro ia para o lado contrário. Não se bicavam!
O sol, inclemente, deixava alguns deles mais queimados, mal se percebendo que haviam passado tanto tempo embutidos em suas carapaças apertadas, curtindo a tonalidade branca leitosa que caracteriza tais duplas, quando em situação eminentemente urbana, em especial durante o inverno.
Quando o objeto que os continha, humano ser, se prostrava em decúbito dorsal, sobre uma cadeira de praia ou esteira, a dupla se via comprimida, amargurada, tentando escapar pelas laterais, mas sem sucesso.
Era visível a angústia de sentir tanto peso sobre o par nem sempre volumoso, nem sempre condizente com o peso a suportar.
O alívio só vinha quando o humano girava, colocando o par voltado para o céu, cada um escorregando para seu próprio lado, ambos sabendo de sua condição de eternamente atados ao compromisso de ali estar, penduricalhos escravos.
Em verdade, sentiam-se vulgares, pois não atraiam olhares cobiçosos dos que passavam, ou estavam na cadeira ao lado.
Talvez um desses pares tenha discutido, na intimidade da alcova, se eram realmente necessários, ou porque viviam sendo alterados em seus volumes, para mais ou para menos, sem serem consultados previamente.
Mas, lá estavam, confinados em praia reservada, pendurados, nús, seguindo seu destino!
No inverno da vida, diminuiriam, secariam e as rugas tomariam conta de suas superfícies, igualmente.
Um não seria diferente do outro.
Unidos pelo destino para viverem uma vida a dois. Triste sina...
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Penduricalhos
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