Sentado em meu canto, observei o andar de uma prosopopéia em direção a uma roseira. Suas inúmeras pernas se alternavam, ora um lado, ora outro, na marcha contínua, definida, em busca de um objetivo.
Mais além, atrás de um imenso pé de sidônio, ainda consegui ver os últimos vestígios da passagem de uma mesóclise, talvez adulta, deixando um rastro meio gelatinoso.
A tarde era quieta, calma, como todas as daqui. Nada acontece de repente, tudo vem aos poucos. No horizonte, um mesófilo pairava, asas bem abertas, sobre a colina verdejante, no esplendor da tarde de verão.
Tudo convidava ao ensimesmamento. Os problemas ficavam de fora, sem acesso autorizado.
Mas, aquela dolina meio esbranquiçada insistia em chamar minha atenção. No começo, fingi que não a vira. Ela, talvez sentindo meu desprezo, revoou diversas vezes ao meu redor. Acabou indo embora, batendo as pequenas asas, em fuga.
Voltei ao meu retiro intelectual. O dolicópode, aos meus pés, esparramado pela borda do canteiro, começava a florir, meio tardiamente, posto que o verão ia alto. As folhas mais altas, talvez por receber mais luz solar, estavam meio desbotadas, de um verde-limão passado. As inferiores, porém, resplandeciam na cor intensa.
Lembrei de meus pais. Os tempos que passamos juntos, os lugares, os ensinamentos. Agora, uns doradídeos mais acolá, na parte afastada do canteiro, se enroscavam na árvore mais próxima, exibindo flores pequenas, delicadas, com textura parecida ao linho. Impossível deixar de vê-los.
Meu pai, professor emérito, sempre tinha algo a nos dizer, interessante, cuidadoso com as palavras. Evitava as esparganiáceas em sua fala, para que melhor o entendêssemos. Claro e preciso, sempre.
Sentava-se, por vezes, sobre um humuleno antigo, que tínhamos no terraço, à frente da casa, e, aos poucos, ia abordando diversos assuntos, sem pressa. Lembro-me quando nos ensinou que a hussita prejudica o desenvolvimentos dos jovens, e que devíamos, a todo custo, evitá-la. Nenhum dos três irmãos jamais a experimentou, mesmo após sua morte.
Uma folha se deslocou um pouco, sobre a grama, e pude ver uma objurgatória.escura, devorando a dita folha pelas bordas, apressada, antes que, em sua cadeia alimentar, aparecesse algum otim esfaimado e a levasse em seu bico afilado.
Voltei aos meus pais. Minha mãe, muito dedicada, nos aconselhava energicamente a tomar diariamente o seu famoso suco de paronímia, que fazia como ninguém. Ai do filho que esquecesse seu copo, ainda cheio, sobre a pia. Ela ia atrás e trazia, pela orelha, até que a última gota fosse ingerida.
Minha irmã, a primogênita, sempre preferiu se dedicar à música, passando horas com seu precórdio antigo, herança de família, no colo, dedilhando suas cordas, algumas ainda originais, outras trocadas por modelos de nylon, mais modernos.
Meu irmão, o caçula, era mais agitado. Sempre estava com sua Slivovitz novinha em folha, com assento de couro preto, para passear no bairro, mostrando o que ganhara naquele Natal, o último antes de perdermos nosso pai querido.
A tarde começou a ir embora, no horizonte, quando me dei conta do tempo.
Descobri que muitas pessoas lêem textos, e criam seus próprios significados para as palavras, sem se preocupar com o que o autor quis dizer, realmente.
Quer um exemplo? Você pode ter lido esta crônica até aqui sem ter percebido quantas palavras foram usadas num sentido, mas que realmente têm outro significado. Veja, no final, as palavras empregadas erroneamente, para parecer um texto normal.
É assim, mesmo. O importante é a fluência do texto, não o seu conteúdo. Parece, mas não é!
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Eis o sentido real das palavras acima usadas:
prosopopéia = Figura pela qual se dá vida e, pois, ação, movimento e voz, a coisas inanimadas, e se empresta voz a pessoas ausentes ou mortas e a animais; personificação, metagoge.
sidônio= De, ou pertencente ou relativo a Sídon, cidade da Fenícia
mesóclise= Intercalação de pronome átono em um verbo. Ex.: dir- te- ei, amá- lo- ia, contar- vo-lo- ia.
mesófilo= Diz-se do que só cresce em condições específicas de temperatura e de umidade, como plantas florestais dos trópicos.
dolina = Depressão afunilada, produzida pela dissolução em regiões calcárias ou pelo desmoronamento resultante de tais dissoluções.
dolicópode = Que tem patas grandes.
doradídeos= Família de peixes cipriniformes, siluriformes, que reúne pequenos bagres dos rios da América do Sul
esparganiáceas= Família de plantas monocotiledôneas caracterizadas pelas flores com perianto de três a seis peças, tendo as masculinas três a seis estames
humuleno= Sesquiterpeno cíclico que contém três ligações duplas, e cujo esqueleto é como o do humulano e que ocorre no lúpulo
hussita= Adepto da doutrina de Jan Huss (1369-1415), reformista tcheco, pela qual as boas obras eram indiferentes para a salvação eterna.
objurgatória= Ato de objurgar; censura; repreensão violenta; objurgatória.
otim= cachaça.
paronímia= Qualidade de parônimo.Parônimo =Diz-se das palavras que têm som semelhante ao de outras; paronímico:descrição e discrição; onicolor e unicolor; vultoso e vultuoso.
precórdio= Área anterior ao coração.
Slivovitz = Aguardente de ameixa, feita sobretudo na Romênia, no N. da Itália, e numa região da antiga Iugoslávia.