terça-feira, 27 de março de 2007

Herói à venda

A receita para fazer um herói é complicada, pois exige ingredientes nem sempre à mão, muita vez escassos.

Um herói pode não nascer herói, mas vai captando da vida o que esta tem de melhor e guarda em seu baú da personalidade.

Algo acontece que agride a liberdade. O herói se faz, num estalar de dedos, e sai a combater os usurpadores, os ditadores. Alguém invade o que não é seu, se apossa do bem comum. Outro herói surge e se posta diante do invasor e o enfrenta como pode.

Assim foi Franklin Martins.

Saiu do nada, se formou, combateu a ditadura militar, foi exilado, voltou com um hábeas corpus e se bandeou para a clandestinidade, onde podia usar algumas das coisas que mantinha guardadas em seu baú da personalidade.

Esteve atrás das grades junto com o Zé (o Dirceu de triste figura), Luiz Travassos, Vladimir Palmeira, e Antônio Ribas, líder secundarista em São Paulo, morto na guerrilha do Araguaia. Muitos heróis viram o sol nascer quadrado e isso como mera conseqüência de seu idealismo, de suas crenças no que é bom, decente, honesto.

Como jornalista, já cobriu as CPIs do Collor e dos Anões do Orçamento. Suas palavras claras, precisas, muito contribuíram para formar a opinião pública. Direta, ou indiretamente, foi um dos autores intelectuais das marchas dos “caras pintadas”, que derrubaram a ditadura militar.

Quando estouraram os mensalões, o valerioduto, e a chuva ainda caia durante o “delúbio” que emporcalhou a terra, Franklin Martins estava lá, firme, para levantar os pontos fracos, pedir decisões, divulgar as farsas.

Há muito mais o que se falar de nosso herói Franklin Martins.

Mas, na caixinha de surpresas da vida, eis que nosso herói se pôs à venda e foi arrematado pelo governo.

O mesmo governo que tanto criticou, mesmo antes da primeira eleição. O mesmo governo do qual disse: “O PT está fortemente atingido, vai ter dificuldades para se reequilibrar. A decepção do país é maior do que em outros momentos”.

Não importa porque, mas ele fez isso. Demoliu, pedra por pedra, o monumento que nossa gratidão ergueu para honrar seu nome, pelo que fez pela pátria. Esvaziou o baú da personalidade, tornando-se apenas mais um. Um Hércules minúsculo que não mais irá limpar as cavalariças do rei Áugias, mas viver delas.

O que faz um herói se vender? Ego, vaidade, necessidade ditada pela auto-estima?

Não sei, e não me importo.

Mas entristeço ao saber Franklin Martins como novo Ministro do governo.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Uma história pouco real

Era uma família comum, sem nada de especial: marido mulher e oito filhos, como muitas outras.

Poderiam ter vivido no oriente alto, ou no baixo, mas, modestos, preferiram o oriente médio.

O pai, típico árabe, tinha uma tenda para fabricar albornoz, burka e outras peças do vestuário. Sua freguesia era constante, e permitia manter a família, com certo conforto.

O patriarca resolvera que todos os filhos homens teriam o primeiro nome Al, e o segundo nome seria decidido após o nascimento.

Ele mesmo, por decisão de seu pai, se chamava Al Faiat.

Ao nascer o primeiro filho, ainda durante o parto, e após alguma discussão com a mulher que gemia, o pai o denominou Al Nasser.

Veio, após um ano, o segundo filho e foi chamado de Al Arife. Mais tarde, acabou se dedicando à construção civil.

O tempo passou, mas não sem que novo filho, o terceiro, viesse ao mundo. O pai o chamou de Al Kova. Por ser prematuro, passou muito tempo trancado no quarto, sob os cuidados da mãe. Na puberdade, se revelou tímido, não saia da cama, pouco falava.

Mas, a natureza reservava uma surpresa para aquele pai dedicado. O quarto filho veio com pele branca, olhos claros e cabelo totalmente branco. Uma falha genética. O pai o chamou de Al Bino.

Veio o quinto filho. Al Faiat teve uma premonição de que esse seria o continuador de sua loja, aprendendo com o pai o ofício de costura, e mantendo o estabelecimento de família, mesmo após sua morte. O chamou de Al Finet.

Por decisão comum, mulher e marido decidiram dar um tempo na geração de filhos. Ficaram quase dois anos sem ter um parto em casa.

A tradição oriental falou mais alto. E veio o sexto filho. O nome obedeceu à tradição e foi chamado de Al Vissarar. A boa notícia de seu nascimento correu a pequena cidade.

Ano seguinte, veio Al Kali, que, quando adulto, se formou em Química. E no outro ano, veio Al Voross. Este último cresceu e sempre me metia em confusões.

Não se sabe a situação atual da família, mas isso se faz desnecessário, pois ninguém se interessa por famílias inexistentes.

terça-feira, 13 de março de 2007

Palavras

Sentado em meu canto, observei o andar de uma prosopopéia em direção a uma roseira. Suas inúmeras pernas se alternavam, ora um lado, ora outro, na marcha contínua, definida, em busca de um objetivo.
Mais além, atrás de um imenso pé de sidônio, ainda consegui ver os últimos vestígios da passagem de uma mesóclise, talvez adulta, deixando um rastro meio gelatinoso.
A tarde era quieta, calma, como todas as daqui. Nada acontece de repente, tudo vem aos poucos. No horizonte, um mesófilo pairava, asas bem abertas, sobre a colina verdejante, no esplendor da tarde de verão.
Tudo convidava ao ensimesmamento. Os problemas ficavam de fora, sem acesso autorizado.
Mas, aquela dolina meio esbranquiçada insistia em chamar minha atenção. No começo, fingi que não a vira. Ela, talvez sentindo meu desprezo, revoou diversas vezes ao meu redor. Acabou indo embora, batendo as pequenas asas, em fuga.
Voltei ao meu retiro intelectual. O dolicópode, aos meus pés, esparramado pela borda do canteiro, começava a florir, meio tardiamente, posto que o verão ia alto. As folhas mais altas, talvez por receber mais luz solar, estavam meio desbotadas, de um verde-limão passado. As inferiores, porém, resplandeciam na cor intensa.
Lembrei de meus pais. Os tempos que passamos juntos, os lugares, os ensinamentos. Agora, uns doradídeos mais acolá, na parte afastada do canteiro, se enroscavam na árvore mais próxima, exibindo flores pequenas, delicadas, com textura parecida ao linho. Impossível deixar de vê-los.
Meu pai, professor emérito, sempre tinha algo a nos dizer, interessante, cuidadoso com as palavras. Evitava as esparganiáceas em sua fala, para que melhor o entendêssemos. Claro e preciso, sempre.
Sentava-se, por vezes, sobre um humuleno antigo, que tínhamos no terraço, à frente da casa, e, aos poucos, ia abordando diversos assuntos, sem pressa. Lembro-me quando nos ensinou que a hussita prejudica o desenvolvimentos dos jovens, e que devíamos, a todo custo, evitá-la. Nenhum dos três irmãos jamais a experimentou, mesmo após sua morte.
Uma folha se deslocou um pouco, sobre a grama, e pude ver uma objurgatória.escura, devorando a dita folha pelas bordas, apressada, antes que, em sua cadeia alimentar, aparecesse algum otim esfaimado e a levasse em seu bico afilado.
Voltei aos meus pais. Minha mãe, muito dedicada, nos aconselhava energicamente a tomar diariamente o seu famoso suco de paronímia, que fazia como ninguém. Ai do filho que esquecesse seu copo, ainda cheio, sobre a pia. Ela ia atrás e trazia, pela orelha, até que a última gota fosse ingerida.
Minha irmã, a primogênita, sempre preferiu se dedicar à música, passando horas com seu precórdio antigo, herança de família, no colo, dedilhando suas cordas, algumas ainda originais, outras trocadas por modelos de nylon, mais modernos.
Meu irmão, o caçula, era mais agitado. Sempre estava com sua Slivovitz novinha em folha, com assento de couro preto, para passear no bairro, mostrando o que ganhara naquele Natal, o último antes de perdermos nosso pai querido.
A tarde começou a ir embora, no horizonte, quando me dei conta do tempo.
Descobri que muitas pessoas lêem textos, e criam seus próprios significados para as palavras, sem se preocupar com o que o autor quis dizer, realmente.
Quer um exemplo? Você pode ter lido esta crônica até aqui sem ter percebido quantas palavras foram usadas num sentido, mas que realmente têm outro significado. Veja, no final, as palavras empregadas erroneamente, para parecer um texto normal.
É assim, mesmo. O importante é a fluência do texto, não o seu conteúdo. Parece, mas não é!

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Eis o sentido real das palavras acima usadas:
prosopopéia
= Figura pela qual se dá vida e, pois, ação, movimento e voz, a coisas inanimadas, e se empresta voz a pessoas ausentes ou mortas e a animais; personificação, metagoge.
sidônio= De, ou pertencente ou relativo a Sídon, cidade da Fenícia
mesóclise= Intercalação de pronome átono em um verbo. Ex.: dir- te- ei, amá- lo- ia, contar- vo-lo- ia.
mesófilo= Diz-se do que só cresce em condições específicas de temperatura e de umidade, como plantas florestais dos trópicos.
dolina
= Depressão afunilada, produzida pela dissolução em regiões calcárias ou pelo desmoronamento resultante de tais dissoluções.
dolicópode
= Que tem patas grandes.
doradídeos= Família de peixes cipriniformes, siluriformes, que reúne pequenos bagres dos rios da América do Sul

esparganiáceas= Família de plantas monocotiledôneas caracterizadas pelas flores com perianto de três a seis peças, tendo as masculinas três a seis estames

humuleno= Sesquiterpeno cíclico que contém três ligações duplas, e cujo esqueleto é como o do humulano e que ocorre no lúpulo
hussita= Adepto da doutrina de Jan Huss (1369-1415), reformista tcheco, pela qual as boas obras eram indiferentes para a salvação eterna.
objurgatória= Ato de objurgar; censura; repreensão violenta; objurgatória.
otim= cachaça.
paronímia= Qualidade de parônimo.Parônimo =Diz-se das palavras que têm som semelhante ao de outras; paronímico:descrição e discrição; onicolor e unicolor; vultoso e vultuoso.
precórdio= Área anterior ao coração.
Slivovitz
= Aguardente de ameixa, feita sobretudo na Romênia, no N. da Itália, e numa região da antiga Iugoslávia.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Um novo ciclo de vida

Recebi de um amigo um texto em inglês e tomei a liberdade de traduzir e publicar, pois achei interessante. O título que adotei (em inglês era I'll drink to this) me pareceu mais razoável, em português.
Aí vai:

Um novo ciclo de vida

Eu penso que o ciclo da vida está errado, tal como se apresenta.

Você deveria começar morto e levantar-se.

Em seguida, você acordaria numa antiga casa e iria se sentindo cada dia melhor.

Você estaria curtindo o fato de ter muita saúde; iria até o banco e receberia a sua pensão.

Então, quando começasse a trabalhar, iria ganhar um relógio de ouro logo em seu primeiro dia de trabalho.

Aí, você trabalharia por quarenta anos até que ficasse jovem o suficiente para curtir sua aposentadoria.

Você beberia álcool, iria a festas, se tornaria um tanto promíscuo e ficaria prontinho para entrar no curso secundário.

Em seguida, após algum tempo, você iria para a escola primária, se tornaria um garotinho, brincaria, não teria qualquer responsabilidade, depois viraria um bebezinho e então...

Você gastaria os últimos 9 meses de sua vida boiando pacificamente como se estivesse num luxuoso spa: aquecimento central, serviço de quarto permanente, amplo apartamento, até que, de repente, você desapareceria num orgasmo.

E assim terminariam os seus dias.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Compondo um texto

Muitos (os que não escrevem, principalmente) não conseguem avaliar o prazer de escrever.
Cada escolha de palavra, uma simples vírgula, ou dois pontos, tudo é emoção para o redator. À medida em que o texto vai sendo composto, uma certa vibração toma conta do cérebro do autor, e o compele a ir além, a buscar idéias, a harmonizar cada parágrafo com o anterior, cada enfoque novo com a raiz básica do texto.
Por certo não me refiro a textos convencionais, comerciais, ou relatórios de CPIs. Esses são movidos por interesses menores.
Falo dos bons textos, como os de Reynaldo Azevedo, colunista da revista Veja, ou os de Roberto Pompeu de Toledo, Editor Especial da mesma revista.
Há outros? Claro que há! Mas cada um, tal como os santos, tem seus devotos.
O recurso do paralelismo é sempre bem-vindo, em especial quando o redator é dos bons. Aborda-se um assunto e se usa algo similar para complementar a compreensão e enriquecer o discurso. O Roberto é um especialista nisso. Veja seu ensaio na Veja de 07 de março de 2007.
Não faço a apologia de determinada mídia, como pode alguém pensar, mas fico altamente motivado quando leio uma boa revista, mesmo sendo de outros países.
A riqueza do texto está na alma de quem escreve, no olhar atento de quem lê e no cuidado de quem publica.
Já vi boas obras sendo relegadas a meros pasquins, e textos pobres publicados em boas mídias.
Há que se louvar os editores, nem sempre tão conhecidos, mas os responsáveis pela adequação de bons textos com boas mídias.
Infelizmente, a leitura não é incentivada como deveria, em escolas públicas. Há jovens, terminando o segundo grau, que lêem mas não entendem o que leram. criando-se um abismo que, provavelmente, jamais será vencido.
Uma pena.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Não comecei bem

Quando se começa um blog, nem tudo são flores. Tem coisas não muito claras, que você tem que descobrir aos poucos.
Não adianta contar com a Laurinha, claro! Ela deve estar metida em cursos, pesquisas, trabalhos, lá em Sevilha e nem deu bola para meus emails pedindo socorro.
Mas, de tanto clicar aqui, ali e acolá, acabei achando esta tela onde se escreve o novo texto.
Todo internauta tem que ser persistente, curioso, batalhador.
De agora em diante, vai ser mais fácil.
Ainda estou longe de escrever, aqui, o que pretendia. Os problemas funcionais do blog me deixaram meio confuso.
Prometo, porém, a mim mesmo, que, doravante, só escreverei o que tenho vontade de escrever.
Nada de ficar tateando, no escuro.
Obrigado, Laura, por seu comentário (único, até hoje) sobre meu primeiro texto.
Eu citei você, acima, mas foi mais para te provocar uma resposta.