A recente revogação judicial do alvará que permitia uma criança de 7 anos participar de programa do SBT chamou a atenção da imprensa e, de certa forma, de muitos brasileiros.
A menina impedida de trabalhar naquele canal de televisão se chama Maisa Silva, quase uma homônima de nossa primeira dama, Marisa Silva.
Mas, essa quase semelhança nominal contém uma colossal diferença entre os perfis das duas mulheres - uma, criança e a outra já bem mais madura, em seus 59 anos.
Nossa primeira dama é de pouca - ou nenhuma palavra - mesmo nas ocasiões onde o cerimonial abre espaço e ela deveria se fazer ouvir. Nada!
Já a menina Maisa esbanja comunicação, com palavreado e sintaxe observada bem acima do que se espera em sua pouca idade. Ela prende a atenção de um auditório repleto e, certamente, de muitas famílias que, aos domingos, a assistem na longa tarde. Maisa improvisa suas falas, o que, é evidente, deixa os produtores de seu programa em situações nem sempre confortáveis, pois a criança-prodígio está se lixando, como diria aquele político, para a opinião pública, e de seus redatores em especial.
A dama Marisa viaja pelos quatro continentes, sai nas fotos oficiais ao lado do marido -esse sim, um falastrão, que despreza o vernáculo e fala em rede de televisão como se estivesse nas gerais de um campo de futebol, onde seu time predileto está em campo. Talvez isto complete o casal, um mudo e outro loquaz. Mais que isso, a primeira dama não sai pela cidade visitada, seja Kinshasa ou Paris, para conhecer obras assistenciais, entidades voltadas para crianças ou centros de pesquisa educacionais. Se saísse, teria que falar, e isso ela não faz, em hipótese alguma.
Um paralelo com a inesquecível Ruth Cardoso é quase inevitável. Nesta, a cultura vazando em obras assistenciais, em declarações inteligentes, compatível com a formação pessoal e a do marido. Na outra, o mutismo próprio de quem nada tem a dizer, sobre coisa alguma, ainda que as mais óbvias.
A menina Maisa Silva tem pouca - ou nenhuma - chance de se tornar primeira dama de nosso sofrido país. Nada nos impede, porém, de imaginar como seria.
Sua fala inteligente, criativa, aperfeiçoada com a idade e o estudo superior, permitiria expor seus pensamentos sobre diversos aspectos da vida do Brasil, influenciando opiniões, catalisando as atenções dos políticos para aprovação de leis de efetivo interesse nacional. Sua imensa simpatia, que desde já se faz presente, despertaria um novo ícone na presidência da nação, o que serviria de calço para as ações do marido-presidente.
Desde já a menina não se alinha com o linguajar popularesco - e, por vezes, despudorado - de seu atual patrão, outro apedeuta que veio das calçadas, onde era mascate, para a direção de um pequeno império de comunicações. Talvez a primeira dama quase homônima não se importasse com isso, mas a pequena notável, versão atual da saudosa Shirley Temple do cinema americano, se sentiu agredida com as frases pouco inteligentes de seu patrão, com quem divide o programa dominical, e saiu de cena chorando. Como se fosse apenas uma criança de sete anos.
No cenário do “tudo por dinheiro”, pode-se entender, mesmo que não se aceite, pais de parcos recursos explorando uma inteligência infantil capacitada a fazer o aporte de recursos que eles - os pais - não conseguiriam, por vias normais. Mas não se consegue admitir a isenção dos pais no caso da agressão pública sofrida pela filha menor.
Embora um tanto tardiamente, se fez justiça nesse quadro vulgar, de pouco ou nenhum aspecto cultural, onde um marmanjo de voz empolada usa sua larga experiência na argumentação vazia para causar o choro na menor.
No dia 22 de maio passado, o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão enviou ofício ao Ministério das Comunicações indagando das medidas contra o programa onde o ex-mascate pressiona com perguntas impróprias a menina prodígio.
Não se tem notícia, ainda, do pronunciamento do Ministério envolvido, embora o prazo de resposta seja convencionado em apenas cinco dias.
Enquanto isso, o iletrado gato poderoso vai continuar brincando com o pobre camundongo infantil.
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Segunda-feira, 23 de Março de 2009
Estudar para que?
O mundo moderno abriu perspectivas novas para pessoas iletradas, sem qualquer estudo.
O caso mais comum, aqui no Brasil, é de jogadores de futebol, que ganham muito, mas muito mesmo, dinheiro e pouco, ou nada, têm de estudo, ainda que básico. Um médico, que estuda mais de 30 anos para chegar ao um doutorado, pode jamais ganhar rendimentos comparáveis ao de um jogador de futebol, mesmo que esse não seja um Ronaldinho Gaúcho, por exemplo.
Um professor universitário tem rendimento mensal médio que apenas chega aos dez por cento do que ganha um ator de televisão, embora muitos destes jamais tenham frequentado uma universidade.
Deputados Federais recebem quantias astronômicas, entre salários, benefícios, auxílios complementares, alimentação, moradia e outros que-tais pouco ou nada justificáveis. E muitos deles jamais completaram a escola secundária, sequer.
O nosso presidente da república não terminou a escola primária, embora tivesse oportunidade de completar seus estudos, pois há 30 anos não tem trabalho que absorva seu tempo, impedindo-o de buscar as letras. Poderia chegar ao doutorado, nesse tempo, se tivesse vontade.
Mas, num país de tantos iletrados como o nosso, o povo associa títulos de cultura à "elite dominante", como se, hoje, estivéssemos vendo essa tal elite avançando no patrimônio público. O que se vê, em termos de orgia de desvio do erário público, nada tem a ver com elites, ou diplomas, pois safadezas não escolhem lado para se pronunciarem.
Vamos nos colocar na posição de um adolescente de escola pública, sem boa condição financeira familiar, estudando a noite, e trabalhando durante o dia em uma indústria afastada de seu domicílio. Pode chegar o dia em que ele raciocine sobre seu esforço e as compensações que poderão advir dele, e chegue à triste conclusão de que seu estudo em nada irá minorar suas penúrias financeiras e de sua família.
Por outro lado, verá jogadores de futebol dirigindo carrões importados, artistas de tevê passando férias na Europa e morando em mansões e deputados se locupletando com dinheiro ilegalmente conseguido, através de arranjos escusos, negociatas em licitações, em tráficos de influência.
Não será preciso ser muito esperto para concluir que estudar não garante absolutamente nada, nesse mundo globalizado que tanto enfatiza as glórias efêmeras do esporte, da novela ou do circo de Brasília.
Falta, todavia, uma visão mais abrangente, quantitativa, das exceções de ricos iletrados na população ampla de um país. Para milhares de adolescentes jogando futebol em campos de várzea, um apenas se tornará um craque e ganhará milhões de reais a cada ano. Artistas famosos de televisão compõem um grupo muito restrito de pessoas, quando comparados com o grupo dos que tentam se projetar e nada conseguem. Muitos se candidatam a cargos eletivos na política local e apenas pouco mais de 500 chegarão ao Senado, ou à Câmara, para fazer jus ao mais que bem remunerado salário, completado com adicionais de natureza duvidosa.
Deve, pois, se cultivar o culto ao iletrado? Certamente que não!
Mesmo quando o presidente da república afirma que (sic) ler é pior que fazer exercícios em esteira, temos que manter no jovem o espírito da busca da leitura, do saber.
Não se conhece, na história da democracia mundial, um caso de grande estadista sem instrução, embora, como contraponto, se conheça muitos estadistas fracassados com boa cultura. Nosso presidente visita diversos países sem ler as notas resumidas sobre o país a ser visitado. E, assim, incorre em erros grosseiros, como quando incluiu a Bolívia entre os países que não têm fronteiras com o Brasil.
Mas, é verdade, fica muito difícil convencer um jovem rebelde e pouco amigo dos livros a estudar se ele vê, no topo, um dignitário que mal sabe garatujar algumas poucas palavras corretas.
O caso mais comum, aqui no Brasil, é de jogadores de futebol, que ganham muito, mas muito mesmo, dinheiro e pouco, ou nada, têm de estudo, ainda que básico. Um médico, que estuda mais de 30 anos para chegar ao um doutorado, pode jamais ganhar rendimentos comparáveis ao de um jogador de futebol, mesmo que esse não seja um Ronaldinho Gaúcho, por exemplo.
Um professor universitário tem rendimento mensal médio que apenas chega aos dez por cento do que ganha um ator de televisão, embora muitos destes jamais tenham frequentado uma universidade.
Deputados Federais recebem quantias astronômicas, entre salários, benefícios, auxílios complementares, alimentação, moradia e outros que-tais pouco ou nada justificáveis. E muitos deles jamais completaram a escola secundária, sequer.
O nosso presidente da república não terminou a escola primária, embora tivesse oportunidade de completar seus estudos, pois há 30 anos não tem trabalho que absorva seu tempo, impedindo-o de buscar as letras. Poderia chegar ao doutorado, nesse tempo, se tivesse vontade.
Mas, num país de tantos iletrados como o nosso, o povo associa títulos de cultura à "elite dominante", como se, hoje, estivéssemos vendo essa tal elite avançando no patrimônio público. O que se vê, em termos de orgia de desvio do erário público, nada tem a ver com elites, ou diplomas, pois safadezas não escolhem lado para se pronunciarem.
Vamos nos colocar na posição de um adolescente de escola pública, sem boa condição financeira familiar, estudando a noite, e trabalhando durante o dia em uma indústria afastada de seu domicílio. Pode chegar o dia em que ele raciocine sobre seu esforço e as compensações que poderão advir dele, e chegue à triste conclusão de que seu estudo em nada irá minorar suas penúrias financeiras e de sua família.
Por outro lado, verá jogadores de futebol dirigindo carrões importados, artistas de tevê passando férias na Europa e morando em mansões e deputados se locupletando com dinheiro ilegalmente conseguido, através de arranjos escusos, negociatas em licitações, em tráficos de influência.
Não será preciso ser muito esperto para concluir que estudar não garante absolutamente nada, nesse mundo globalizado que tanto enfatiza as glórias efêmeras do esporte, da novela ou do circo de Brasília.
Falta, todavia, uma visão mais abrangente, quantitativa, das exceções de ricos iletrados na população ampla de um país. Para milhares de adolescentes jogando futebol em campos de várzea, um apenas se tornará um craque e ganhará milhões de reais a cada ano. Artistas famosos de televisão compõem um grupo muito restrito de pessoas, quando comparados com o grupo dos que tentam se projetar e nada conseguem. Muitos se candidatam a cargos eletivos na política local e apenas pouco mais de 500 chegarão ao Senado, ou à Câmara, para fazer jus ao mais que bem remunerado salário, completado com adicionais de natureza duvidosa.
Deve, pois, se cultivar o culto ao iletrado? Certamente que não!
Mesmo quando o presidente da república afirma que (sic) ler é pior que fazer exercícios em esteira, temos que manter no jovem o espírito da busca da leitura, do saber.
Não se conhece, na história da democracia mundial, um caso de grande estadista sem instrução, embora, como contraponto, se conheça muitos estadistas fracassados com boa cultura. Nosso presidente visita diversos países sem ler as notas resumidas sobre o país a ser visitado. E, assim, incorre em erros grosseiros, como quando incluiu a Bolívia entre os países que não têm fronteiras com o Brasil.
Mas, é verdade, fica muito difícil convencer um jovem rebelde e pouco amigo dos livros a estudar se ele vê, no topo, um dignitário que mal sabe garatujar algumas poucas palavras corretas.
Mãe, o que é CPI?
Com essa pergunta simples, o Juquinha colocou a mãe em situação difícil.
Pesquisa recente mostrou que a maioria dos brasileiros que vivem na periferia das cidades grandes não sabe exatamente o significado dessa sigla tão em moda, na mídia atual.
- "Bem, filho! CPI é... é... é... um monte de gente tentando resolver problemas!"
- "Como no vestibular que meu irmão fez e não passou em matemática?"
- "Não exatamente, Juquinha! No vestibular os problemas podem ficar sem solução, e quem se prejudica é apenas o mau aluno, mas nas CPIs não. É o país inteiro que fica prejudicado!".
O garoto não se deu por satisfeito.
- "Mas, se prejudica todo mundo no Brasil, porque demora tanto a resolver o problema das CPIs?".
A mãe virou o bife na frigideira, abaixou a chama no bico de gás do fogão, e pressentiu que a conversa seria complicada.
- "Demora porque tem gente que fica repetindo as mesmas perguntas que outros já fizeram, usando o celular, conversando com outros na mesma sala, lendo revistas, ou simplesmente olhando para as paredes, sem participar!".
O Juquinha fez cara de quem estava pensando, enquanto a mãe tirava o bife frito da frigideira e punha outro em seu lugar.
- "Mas, se esses que ficam lá, sem falar nada, ou falando besteiras, só atrapalham, porque o dono da CPI não põe para fora da sala, como faz a Tia Nair, na minha escola, quando algum colega não presta atenção?".
- "Filho! CPI não é como escola! Não se pode mandar sair uma pessoa que faz parte da CPI. Eles são adultos, e não alunos, como você!".
- "Mas se estão atrapalhando a aula, quer dizer, a CPI, estão atrapalhando o Brasil, não é, mãe?".
O segundo bife foi retirado da frigideira.
- "Estão, filho! Mas essas pessoas têm um prazo para resolver os problemas. Então, devem deixar tudo prontinho dentro desse prazo".
- "Mas a tv disse que a CPI do ... como é mesmo? ... mensalão, tem que terminar hoje os seus trabalhos e tudo ainda está atrasado. E se não der tempo?".
Agora foram as batatinhas para a frigideira. Cortadas à francesa, com um pouco de manteiga, cebolinha e orégano, para dar mais gosto.
- "Se não der tempo, fazem um relatório – um papel escrito, explicou – com o que acham que seria a solução dos problemas. Se esse papel não for aceito, tudo termina e fica como está. Ou seja, de nada valeu tudo isso!".
As batatinhas foram mexidas, para não pegar no fundo da frigideira e dourar por igual.
- "E a diretora não vai mandar todo mundo embora desse lugar onde ninguém decide nada? Se fosse na minha escola, os professores seriam trocados por outros".
- "É, filho! Mas lá em Brasília as coisas não são tão simples como em sua escola. Eles fazem o que querem, não são postos para fora da sala nem mandados para a Diretoria, os professores continuam dizendo o que querem, atendendo o celular... tudo igual!"
- "E o que a senhora vai fazer para acabar com isso, mãe?"
As batatinhas foram colocadas sobre um papel absorvente, para retirar o excesso de óleo. Estavam lindas, apetitosas!
- "Eu só posso não votar mais nesses que ficam falando no celular, ou conversando. Eu consigo reconhecer a cara deles, na tv. E, assim, eles não ficam mais lá na sala de CPIs enganando a gente, quando deveriam resolver os problemas".
Os bifes e as batatinhas foram levados para a mesa da copa.
- "E eu, mãe. Posso não votar neles, também?".
- "Não filho. Embora você, que ainda é uma criança, já tenho percebido o que é uma CPI, não tem idade para votar. Mas, vai lembrar dessa nossa conversa, quando for eleitor, certamente!"
- "Mãe, e se...".
- "Chega filho. O almoço está na mesa e vai esfriar. As CPIs podem esperar. Vamos!"
Durante o almoço, o menino estava triste, ensimesmado, olhar distante. Alguém, nesse imenso país, estava preocupado com as CPIs.
Pesquisa recente mostrou que a maioria dos brasileiros que vivem na periferia das cidades grandes não sabe exatamente o significado dessa sigla tão em moda, na mídia atual.
- "Bem, filho! CPI é... é... é... um monte de gente tentando resolver problemas!"
- "Como no vestibular que meu irmão fez e não passou em matemática?"
- "Não exatamente, Juquinha! No vestibular os problemas podem ficar sem solução, e quem se prejudica é apenas o mau aluno, mas nas CPIs não. É o país inteiro que fica prejudicado!".
O garoto não se deu por satisfeito.
- "Mas, se prejudica todo mundo no Brasil, porque demora tanto a resolver o problema das CPIs?".
A mãe virou o bife na frigideira, abaixou a chama no bico de gás do fogão, e pressentiu que a conversa seria complicada.
- "Demora porque tem gente que fica repetindo as mesmas perguntas que outros já fizeram, usando o celular, conversando com outros na mesma sala, lendo revistas, ou simplesmente olhando para as paredes, sem participar!".
O Juquinha fez cara de quem estava pensando, enquanto a mãe tirava o bife frito da frigideira e punha outro em seu lugar.
- "Mas, se esses que ficam lá, sem falar nada, ou falando besteiras, só atrapalham, porque o dono da CPI não põe para fora da sala, como faz a Tia Nair, na minha escola, quando algum colega não presta atenção?".
- "Filho! CPI não é como escola! Não se pode mandar sair uma pessoa que faz parte da CPI. Eles são adultos, e não alunos, como você!".
- "Mas se estão atrapalhando a aula, quer dizer, a CPI, estão atrapalhando o Brasil, não é, mãe?".
O segundo bife foi retirado da frigideira.
- "Estão, filho! Mas essas pessoas têm um prazo para resolver os problemas. Então, devem deixar tudo prontinho dentro desse prazo".
- "Mas a tv disse que a CPI do ... como é mesmo? ... mensalão, tem que terminar hoje os seus trabalhos e tudo ainda está atrasado. E se não der tempo?".
Agora foram as batatinhas para a frigideira. Cortadas à francesa, com um pouco de manteiga, cebolinha e orégano, para dar mais gosto.
- "Se não der tempo, fazem um relatório – um papel escrito, explicou – com o que acham que seria a solução dos problemas. Se esse papel não for aceito, tudo termina e fica como está. Ou seja, de nada valeu tudo isso!".
As batatinhas foram mexidas, para não pegar no fundo da frigideira e dourar por igual.
- "E a diretora não vai mandar todo mundo embora desse lugar onde ninguém decide nada? Se fosse na minha escola, os professores seriam trocados por outros".
- "É, filho! Mas lá em Brasília as coisas não são tão simples como em sua escola. Eles fazem o que querem, não são postos para fora da sala nem mandados para a Diretoria, os professores continuam dizendo o que querem, atendendo o celular... tudo igual!"
- "E o que a senhora vai fazer para acabar com isso, mãe?"
As batatinhas foram colocadas sobre um papel absorvente, para retirar o excesso de óleo. Estavam lindas, apetitosas!
- "Eu só posso não votar mais nesses que ficam falando no celular, ou conversando. Eu consigo reconhecer a cara deles, na tv. E, assim, eles não ficam mais lá na sala de CPIs enganando a gente, quando deveriam resolver os problemas".
Os bifes e as batatinhas foram levados para a mesa da copa.
- "E eu, mãe. Posso não votar neles, também?".
- "Não filho. Embora você, que ainda é uma criança, já tenho percebido o que é uma CPI, não tem idade para votar. Mas, vai lembrar dessa nossa conversa, quando for eleitor, certamente!"
- "Mãe, e se...".
- "Chega filho. O almoço está na mesa e vai esfriar. As CPIs podem esperar. Vamos!"
Durante o almoço, o menino estava triste, ensimesmado, olhar distante. Alguém, nesse imenso país, estava preocupado com as CPIs.
Protegendo o nosso meio
O pessoal do Greenpeace tem conseguido diversas vitórias em sua luta contra os que não respeitam o meio ambiente. E todo mundo aprova tais objetivos, pois os entendemos como necessários para a preservação de nosso planeta.
Assim, quando lutaram pela suspensão da pesca da baleia, houve uma reação em todo o mundo e tal atividade foi extinta, ou muito minimizada.
Uma nova investida do Greenpeace, entretanto, nos leva a rever a seriedade de seus propósitos. O conhecido movimento acaba de hastear a bandeira pela... acreditem... suspensão da produção de papel higiênico macio!
Se olhado apenas pelo ângulo purista dos integrantes do grupo ambientalista, haverá muita gente que apoiará a supressão do papel higiênico macio de seus banheiros residenciais e profissionais. Esse tipo de papel exige o emprego de mais cloro para garantia de sua brancura perfeita e não pode usar papel reciclado, pois estes são ásperos, podendo irritar a superfície de nossa mais recôndita superfície intima.
Mais cloro, mais poluição, segundo o Greenpeace.
Tudo bem, entendemos isso, mas... e ela, a parte afetada, raspada com papel reciclado de segunda linha, vilipendiada em nome do meio ambiente, embora também seja, em si, um meio a considerar?
Quem lutará por ela? De nome nunca pronunciado em mídia que se preze, a vítima de tal perseguição não poderá ser, simplesmente, abandonada à sua própria sorte!
Temos que reabilitar seus direitos ao macio, ao agradável, ao confortável contato, ainda que efêmero, com um papel de duas - talvez três - camadas brancas, superpostas para nosso conforto e proteção dela, a coitada.
Mas, como faremos sua defesa? Foto dela, ampliada, na mídia, em close frontal, mostrando os vergões gerados pelos reciclados... nem pensar! Os pudicos responderiam com uma contra-ofensiva pesada, atacando os meios de comunicação como devassadores da intimidade dos castos.
Entrevistas em programas de grande audiência na televisão, onde representantes de diversas classes sociais mostrariam para as câmeras o péssimo estado “delas”, e acusando os reciclados, além do Greenpeace, como os geradores de tanto sofrimento? A censura não permitiria, embora os próprios censores, ao assinar o ato de veto, fossem obrigados a apor seus nomes em pé, sem poder sentar, igualmente vítimas dos reciclados.
Uma campanha oficial, do Ministério da Saúde, mostrando os sulcos avermelhados criados pelos reciclados e descrevendo possíveis desenvolvimentos de efeitos colaterais, como inflamações generalizadas, dificuldade no andar (coitado do Juscelino, nosso eficiente carteiro!), e outros possíveis danos? Não consigo imaginar o ministro da pasta, todo engravatado, como sempre, mostrando no modelo vivo, ao lado, tudo isso que foi dito como coisa ruim. O modelo até poderia ser um artista global, para chamar a atenção dos que estiverem pensando em apoiar o Greenpeace, mas que, certamente, desistiriam ao ver o Cauã todo arranhado, com cara de sofredor, lágrimas nos olhos - talvez falsas - mas nem por isso menos convincente. Acho que o sistema de autocensura não aprovaria, mesmo que ela, a focalizada, fosse a do Cauã.
Nos Estados Unidos, a nova empreitada do Greenpeace não colou. Lá há papéis higiênicos de até três camadas e, como se pode prever, elas, as escondidas, devem estar felizes e satisfeitas, sem arranhões de reciclados, sentindo-se prestigiadas por saber que seus donos as respeitam e as querem bem tratadas.
Aqui, em nosso país, temo que surja algum programa oficial, o Papel-Família, que distribua apenas e tão somente papéis higiênicos totalmente reciclados, muito ásperos e desagradáveis, mas entregues gratuitamente aos trabalhadores em todos os postos de saúde. O lema do programa, que podemos imaginar, seria algo do tipo: “Arranha, mas limpa!”
Elas que se cuidem!
Assim, quando lutaram pela suspensão da pesca da baleia, houve uma reação em todo o mundo e tal atividade foi extinta, ou muito minimizada.
Uma nova investida do Greenpeace, entretanto, nos leva a rever a seriedade de seus propósitos. O conhecido movimento acaba de hastear a bandeira pela... acreditem... suspensão da produção de papel higiênico macio!
Se olhado apenas pelo ângulo purista dos integrantes do grupo ambientalista, haverá muita gente que apoiará a supressão do papel higiênico macio de seus banheiros residenciais e profissionais. Esse tipo de papel exige o emprego de mais cloro para garantia de sua brancura perfeita e não pode usar papel reciclado, pois estes são ásperos, podendo irritar a superfície de nossa mais recôndita superfície intima.
Mais cloro, mais poluição, segundo o Greenpeace.
Tudo bem, entendemos isso, mas... e ela, a parte afetada, raspada com papel reciclado de segunda linha, vilipendiada em nome do meio ambiente, embora também seja, em si, um meio a considerar?
Quem lutará por ela? De nome nunca pronunciado em mídia que se preze, a vítima de tal perseguição não poderá ser, simplesmente, abandonada à sua própria sorte!
Temos que reabilitar seus direitos ao macio, ao agradável, ao confortável contato, ainda que efêmero, com um papel de duas - talvez três - camadas brancas, superpostas para nosso conforto e proteção dela, a coitada.
Mas, como faremos sua defesa? Foto dela, ampliada, na mídia, em close frontal, mostrando os vergões gerados pelos reciclados... nem pensar! Os pudicos responderiam com uma contra-ofensiva pesada, atacando os meios de comunicação como devassadores da intimidade dos castos.
Entrevistas em programas de grande audiência na televisão, onde representantes de diversas classes sociais mostrariam para as câmeras o péssimo estado “delas”, e acusando os reciclados, além do Greenpeace, como os geradores de tanto sofrimento? A censura não permitiria, embora os próprios censores, ao assinar o ato de veto, fossem obrigados a apor seus nomes em pé, sem poder sentar, igualmente vítimas dos reciclados.
Uma campanha oficial, do Ministério da Saúde, mostrando os sulcos avermelhados criados pelos reciclados e descrevendo possíveis desenvolvimentos de efeitos colaterais, como inflamações generalizadas, dificuldade no andar (coitado do Juscelino, nosso eficiente carteiro!), e outros possíveis danos? Não consigo imaginar o ministro da pasta, todo engravatado, como sempre, mostrando no modelo vivo, ao lado, tudo isso que foi dito como coisa ruim. O modelo até poderia ser um artista global, para chamar a atenção dos que estiverem pensando em apoiar o Greenpeace, mas que, certamente, desistiriam ao ver o Cauã todo arranhado, com cara de sofredor, lágrimas nos olhos - talvez falsas - mas nem por isso menos convincente. Acho que o sistema de autocensura não aprovaria, mesmo que ela, a focalizada, fosse a do Cauã.
Nos Estados Unidos, a nova empreitada do Greenpeace não colou. Lá há papéis higiênicos de até três camadas e, como se pode prever, elas, as escondidas, devem estar felizes e satisfeitas, sem arranhões de reciclados, sentindo-se prestigiadas por saber que seus donos as respeitam e as querem bem tratadas.
Aqui, em nosso país, temo que surja algum programa oficial, o Papel-Família, que distribua apenas e tão somente papéis higiênicos totalmente reciclados, muito ásperos e desagradáveis, mas entregues gratuitamente aos trabalhadores em todos os postos de saúde. O lema do programa, que podemos imaginar, seria algo do tipo: “Arranha, mas limpa!”
Elas que se cuidem!
A chacina dos corruptos
Ele acordou bem cedo, ainda de madrugada. Devia ser umas 4 horas, no máximo.
Sentou-se na beirada da cama, espreguiçou, olhou a mulher ao lado, ainda dormindo profundamente. Passou-lhe pela cabeça a idéia de voltar a dormir mais um pouco. Mas, logo a rejeitou. Tinha uma missão: iria atrás dos corruptos!
Foi à cozinha, tomou um copo de leite de cabra, comeu um pedaço de pão amanhecido. Vestiu-se, pegou o casaco mais pesado para protegê-lo do frio.
Saiu, e foi diretamente ao ponto de encontro com seus companheiros de caça aos corruptos. Já estavam quase todos lá, na esplanada central, meio impacientes. Faltava apenas o Delcídio, que consideravam, na hierarquia local, como "o chefe".
Não demorou muito e Delcídio surgiu na esquina, com sua figura enorme, cabelos grisalhos, com jeito assim de Antonio Fagundes, mas sem o charme deste.
Completado o grupo, seguiram, rua abaixo, em direção à esplanada.
Mais além, ficava o local de trabalho, onde procuravam corruptos e os dizimavam. Não tinham problemas de consciência. Iam matando, um a um, cada corrupto que encontravam.
Sentiam uma certa vaidade em sua profissão. E, ao mesmo tempo, um certo remorso.
Sabiam que era função de cada um pegar tantos corruptos quantos pudessem. Mas, vez por outra, sentiam o peso dessa função.
Enquanto a grande maioria do povo brasileiro ainda dormia, eles já estavam atrás de corruptos. Quando os jovens de amanhã acordassem, o Brasil teria muitos corruptos a menos. Tinham certeza disso e executavam seu trabalho para ter, a cada dia, mais eficiência, mais corruptos mortos, dizimados no local.
Os corruptos iam sendo amontoados, ali mesmo, sobre a areia.
O som era inconfundível. A cada nota surda, a cada som lembrando um gemido, um corrupto era exterminado. A madrugada ia se aproximando, aos poucos, de seu fim e alguns poucos sinais de aurora podiam ser notados, na linha afastada do horizonte.
Ninguém falava. Entendiam-se pelo olhar, apenas. A comunicação não verbal era mais que suficiente para eles. Novo gemido, novo corrupto sacrificado. Um a menos.
O sol teimou um pouco em aparecer. Mas, não tinha alternativa e, como sempre, acabou pondo a cara de fora, lá bem longe.
O grupo, agora, era bem visível, cada fisionomia bem definida. Estavam todos cansados, percebia-se. O objetivo maior – a caça aos corruptos – os motivava a continuar.
Algumas pessoas se aproximaram e passaram a acompanhar o trabalho deles. A cada corrupto sacrificado, uma expressão de repúdio surgia nas faces delas.
Sabiam que era necessário caçar os corruptos, e que esse trabalho cabia ao grupo ali presente. Certamente, ninguém queria estar na pele daqueles caçadores.
Os corruptos mortos, empilhados em praça pública, começavam a exalar um cheiro ruim, que lembrava a todos a morte, a curta existência em vida. Uma mulher jovem, grávida, se afastou do grupo de observadores e, não contendo sua ânsia, vomitou ali mesmo, ao sentir o cheiro de corruptos mortos.
Os caçadores, pela longa prática no extermínio de corruptos, já estavam acostumados ao cheiro intenso. Apenas um deles, o Zé Dirceu, usava um lenço sobre o nariz e a boca – uma espécie de mordaça – para não sentir o cheiro de corruptos mortos.
Dirceu tivera um emprego anterior, de maior importância, mas fora despedido por justa causa. Ninguém comentava o fato, para não atormentar o já tão triste Zé Dirceu. O grupo o aceitou, certa madrugada, naturalmente, sem alarde, como mais um que queria acompanhar a caça aos corruptos. Na verdade, Zé Dirceu pouco caçava, mais observava o desenrolar da caça.
A manhã já ia a meio quando decidiram parar. A pilha de corruptos executados era enorme. Deram a missão daquele dia por cumprida. Zé Dirceu foi buscar o veículo que usavam para transportar os corruptos mortos. Todos ajudaram a colocar os extintos sobre o veículo.
Mal olharam para a platéia que ainda estava por ali, acompanhando. Muitos, por sua ignorância, não apoiavam a caça aos corruptos e eles sabiam disso. Como explicar a necessidade de tal trabalho? Outros, ao contrário, exprimiam sua satisfação, com um leve sorriso no canto dos lábios. Sabiam que isso tinha que ser feito por alguém.
O veiculo saiu, se arrastando em direção à esplanada central, seguido pelo olhar dos que se aglomeraram no local da chacina.
Delcídio sabia que, na próxima madrugada, tudo recomeçaria. Era seu dever, sua missão. Outra pilha de corruptos surgiria, outros observadores acompanhariam.
Era a rotina de quem caça corruptos...
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Nota: Há uma espécie de crustáceo, que vive nas profundezas da areia de determinadas praias do sul do Brasil, que são chamados vulgarmente de "corruptos". Os pescadores extraem os crustáceos da profundidade, usando uma bomba rudimentar, feita com canos de PVC, e os vendem como isca para pescadores profissionais ou amadores. O texto acima se refere à caça deles.
Sentou-se na beirada da cama, espreguiçou, olhou a mulher ao lado, ainda dormindo profundamente. Passou-lhe pela cabeça a idéia de voltar a dormir mais um pouco. Mas, logo a rejeitou. Tinha uma missão: iria atrás dos corruptos!
Foi à cozinha, tomou um copo de leite de cabra, comeu um pedaço de pão amanhecido. Vestiu-se, pegou o casaco mais pesado para protegê-lo do frio.
Saiu, e foi diretamente ao ponto de encontro com seus companheiros de caça aos corruptos. Já estavam quase todos lá, na esplanada central, meio impacientes. Faltava apenas o Delcídio, que consideravam, na hierarquia local, como "o chefe".
Não demorou muito e Delcídio surgiu na esquina, com sua figura enorme, cabelos grisalhos, com jeito assim de Antonio Fagundes, mas sem o charme deste.
Completado o grupo, seguiram, rua abaixo, em direção à esplanada.
Mais além, ficava o local de trabalho, onde procuravam corruptos e os dizimavam. Não tinham problemas de consciência. Iam matando, um a um, cada corrupto que encontravam.
Sentiam uma certa vaidade em sua profissão. E, ao mesmo tempo, um certo remorso.
Sabiam que era função de cada um pegar tantos corruptos quantos pudessem. Mas, vez por outra, sentiam o peso dessa função.
Enquanto a grande maioria do povo brasileiro ainda dormia, eles já estavam atrás de corruptos. Quando os jovens de amanhã acordassem, o Brasil teria muitos corruptos a menos. Tinham certeza disso e executavam seu trabalho para ter, a cada dia, mais eficiência, mais corruptos mortos, dizimados no local.
Os corruptos iam sendo amontoados, ali mesmo, sobre a areia.
O som era inconfundível. A cada nota surda, a cada som lembrando um gemido, um corrupto era exterminado. A madrugada ia se aproximando, aos poucos, de seu fim e alguns poucos sinais de aurora podiam ser notados, na linha afastada do horizonte.
Ninguém falava. Entendiam-se pelo olhar, apenas. A comunicação não verbal era mais que suficiente para eles. Novo gemido, novo corrupto sacrificado. Um a menos.
O sol teimou um pouco em aparecer. Mas, não tinha alternativa e, como sempre, acabou pondo a cara de fora, lá bem longe.
O grupo, agora, era bem visível, cada fisionomia bem definida. Estavam todos cansados, percebia-se. O objetivo maior – a caça aos corruptos – os motivava a continuar.
Algumas pessoas se aproximaram e passaram a acompanhar o trabalho deles. A cada corrupto sacrificado, uma expressão de repúdio surgia nas faces delas.
Sabiam que era necessário caçar os corruptos, e que esse trabalho cabia ao grupo ali presente. Certamente, ninguém queria estar na pele daqueles caçadores.
Os corruptos mortos, empilhados em praça pública, começavam a exalar um cheiro ruim, que lembrava a todos a morte, a curta existência em vida. Uma mulher jovem, grávida, se afastou do grupo de observadores e, não contendo sua ânsia, vomitou ali mesmo, ao sentir o cheiro de corruptos mortos.
Os caçadores, pela longa prática no extermínio de corruptos, já estavam acostumados ao cheiro intenso. Apenas um deles, o Zé Dirceu, usava um lenço sobre o nariz e a boca – uma espécie de mordaça – para não sentir o cheiro de corruptos mortos.
Dirceu tivera um emprego anterior, de maior importância, mas fora despedido por justa causa. Ninguém comentava o fato, para não atormentar o já tão triste Zé Dirceu. O grupo o aceitou, certa madrugada, naturalmente, sem alarde, como mais um que queria acompanhar a caça aos corruptos. Na verdade, Zé Dirceu pouco caçava, mais observava o desenrolar da caça.
A manhã já ia a meio quando decidiram parar. A pilha de corruptos executados era enorme. Deram a missão daquele dia por cumprida. Zé Dirceu foi buscar o veículo que usavam para transportar os corruptos mortos. Todos ajudaram a colocar os extintos sobre o veículo.
Mal olharam para a platéia que ainda estava por ali, acompanhando. Muitos, por sua ignorância, não apoiavam a caça aos corruptos e eles sabiam disso. Como explicar a necessidade de tal trabalho? Outros, ao contrário, exprimiam sua satisfação, com um leve sorriso no canto dos lábios. Sabiam que isso tinha que ser feito por alguém.
O veiculo saiu, se arrastando em direção à esplanada central, seguido pelo olhar dos que se aglomeraram no local da chacina.
Delcídio sabia que, na próxima madrugada, tudo recomeçaria. Era seu dever, sua missão. Outra pilha de corruptos surgiria, outros observadores acompanhariam.
Era a rotina de quem caça corruptos...
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Nota: Há uma espécie de crustáceo, que vive nas profundezas da areia de determinadas praias do sul do Brasil, que são chamados vulgarmente de "corruptos". Os pescadores extraem os crustáceos da profundidade, usando uma bomba rudimentar, feita com canos de PVC, e os vendem como isca para pescadores profissionais ou amadores. O texto acima se refere à caça deles.
E tudo se acabar na quarta-feira
Não entendo o Carnaval. E olhe que já tentei - com afinco - compreender o que esse evento representa para o brasileiro médio.
Digo “brasileiro médio” porque acredito que os brasileiros de cima, e os de baixo da pirâmide social do Brasil não são assim tão apaixonados por essa festa pagã de nosso calendário. Os ricos não precisam de data marcada para se divertir, pois os recursos para esse fim estão sempre à mão. E, os pobres, que vivem em situação de penúria, justamente por isso não têm acesso aos grandes desfiles, aos salões enfeitados, contentando-se com as imagens vistas na televisão. O Bolsa-família não dá direito a assento, nem nas arqui-bancadas. E nem permite comprar abadás para toda a família.
Já o médio, esse sim, gasta, viaja, se junta, pula, dança, sua, grita e se acha realizado.
O folclore do Carnaval coleciona histórias incríveis associadas a essa festa profana, que chega a este século vinda lá do período medieval. Em sua origem, ela se caracterizava pela alegria intensa, ausência de qualquer tipo de repressão e de censura, permitindo a liberdade de atitudes críticas e eróticas.
Algumas dessas características medievais continuam a existir, em pleno século 21, sobrevivendo há mais de quinhentos anos.
É comum se ver o advogado sério, de aspecto fechado, sair vestido de bailarina de can-can, com sua enorme saia rodada. Isto é liberdade, no entender do profissional. Ou, aquela diretora de escola pública que sempre se fez notar por ser intransigente com seus alunos e funcionários, ir para a avenida travestida de fada benfazeja, buscando o oposto para atingir um suposto equilíbrio. E ninguém a censura, é claro!
Pior, ainda, o engenheiro com três graduações superiores, que se veste como Cinderela e, sob o véu discreto, passa desapercebido no meio da multidão.
Sei de famílias que passam por momentos difíceis, por razões diversas, mas que não perderam uma noite de desfile em escolas de samba, como se o Carnaval tivesse um poder
imenso de interromper os dramas pessoais e familiares - ao menos nesses dias de momo -
para tudo retornar na quarta-feira! O que uma fantasia não faz naquele que sofre!
Mas, tão certa quanta a alegria do Carnaval, chega a quarta-feira de cinzas. E, efetivamente, muitos foliões se encontram tão queimados que chegam até ela quase sob a forma de cinzas. Os problemas voltam a dominar as cabeças, até a pouco mascaradas, e com maior grau de intensidade, pois o sentimento de culpa é a ressaca da folia.
Uma senhora octogenária declarou, na televisão, quando flagrada num bloco carnavalesco, que “essa era a maior felicidade de sua vida”. Não a conheço, mas imagino que tenha se casado com um marido corintiano, morado com a sogra por muitos anos, exercido o magistério em escola recheada de maus alunos, e se aposentado, já viúva, com uma pensão irrisória. Nesse caso, com certeza, o Carnaval seria a maior felicidade de sua vida.
Há, todavia, algo que deveria ser mais bem observado, nos dias que antecedem o Carnaval. A expressão “deitar cinza nos olhos” tem o significado de iludir, de enganar.
Então, os que sofrem com problemas familiares e pessoais, que estão no fundo do poço, descrentes da vida, angustiados, deveriam antecipar a quarta-feira de cinzas, deitando-as em seus olhos na semana anterior e, depois... cair na folia! Estariam iludidos durante o Carnaval, protegidos de seus males.
O que é uma separação para um casal quando o Neguinho da Beija-Flor puxa um samba enredo, com refrão repetido por milhares de pessoas? O que é um filho na UTI quando os abre-alas da Império Serrano se apresentam em sincronia perfeita, arrancando aplausos da multidão? O que é uma ordem de despejo para um desempregado quando o mestre-sala e a porta-bandeira da Mangueira evoluem, graciosos, lindos e soltos, na avenida ensurdecida pela vigorosa bateria campeã?
É. Eu realmente nada entendo de Carnaval...
Digo “brasileiro médio” porque acredito que os brasileiros de cima, e os de baixo da pirâmide social do Brasil não são assim tão apaixonados por essa festa pagã de nosso calendário. Os ricos não precisam de data marcada para se divertir, pois os recursos para esse fim estão sempre à mão. E, os pobres, que vivem em situação de penúria, justamente por isso não têm acesso aos grandes desfiles, aos salões enfeitados, contentando-se com as imagens vistas na televisão. O Bolsa-família não dá direito a assento, nem nas arqui-bancadas. E nem permite comprar abadás para toda a família.
Já o médio, esse sim, gasta, viaja, se junta, pula, dança, sua, grita e se acha realizado.
O folclore do Carnaval coleciona histórias incríveis associadas a essa festa profana, que chega a este século vinda lá do período medieval. Em sua origem, ela se caracterizava pela alegria intensa, ausência de qualquer tipo de repressão e de censura, permitindo a liberdade de atitudes críticas e eróticas.
Algumas dessas características medievais continuam a existir, em pleno século 21, sobrevivendo há mais de quinhentos anos.
É comum se ver o advogado sério, de aspecto fechado, sair vestido de bailarina de can-can, com sua enorme saia rodada. Isto é liberdade, no entender do profissional. Ou, aquela diretora de escola pública que sempre se fez notar por ser intransigente com seus alunos e funcionários, ir para a avenida travestida de fada benfazeja, buscando o oposto para atingir um suposto equilíbrio. E ninguém a censura, é claro!
Pior, ainda, o engenheiro com três graduações superiores, que se veste como Cinderela e, sob o véu discreto, passa desapercebido no meio da multidão.
Sei de famílias que passam por momentos difíceis, por razões diversas, mas que não perderam uma noite de desfile em escolas de samba, como se o Carnaval tivesse um poder
imenso de interromper os dramas pessoais e familiares - ao menos nesses dias de momo -
para tudo retornar na quarta-feira! O que uma fantasia não faz naquele que sofre!
Mas, tão certa quanta a alegria do Carnaval, chega a quarta-feira de cinzas. E, efetivamente, muitos foliões se encontram tão queimados que chegam até ela quase sob a forma de cinzas. Os problemas voltam a dominar as cabeças, até a pouco mascaradas, e com maior grau de intensidade, pois o sentimento de culpa é a ressaca da folia.
Uma senhora octogenária declarou, na televisão, quando flagrada num bloco carnavalesco, que “essa era a maior felicidade de sua vida”. Não a conheço, mas imagino que tenha se casado com um marido corintiano, morado com a sogra por muitos anos, exercido o magistério em escola recheada de maus alunos, e se aposentado, já viúva, com uma pensão irrisória. Nesse caso, com certeza, o Carnaval seria a maior felicidade de sua vida.
Há, todavia, algo que deveria ser mais bem observado, nos dias que antecedem o Carnaval. A expressão “deitar cinza nos olhos” tem o significado de iludir, de enganar.
Então, os que sofrem com problemas familiares e pessoais, que estão no fundo do poço, descrentes da vida, angustiados, deveriam antecipar a quarta-feira de cinzas, deitando-as em seus olhos na semana anterior e, depois... cair na folia! Estariam iludidos durante o Carnaval, protegidos de seus males.
O que é uma separação para um casal quando o Neguinho da Beija-Flor puxa um samba enredo, com refrão repetido por milhares de pessoas? O que é um filho na UTI quando os abre-alas da Império Serrano se apresentam em sincronia perfeita, arrancando aplausos da multidão? O que é uma ordem de despejo para um desempregado quando o mestre-sala e a porta-bandeira da Mangueira evoluem, graciosos, lindos e soltos, na avenida ensurdecida pela vigorosa bateria campeã?
É. Eu realmente nada entendo de Carnaval...
Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008
Paris: derrubando mitos
Fui a Paris, alguns dias atrás.
Muita gente vai, eu sei. Mas, fui para tornar realidade um sonho de juventude.
Doze anos em escola da colônia francesa em São Paulo (o Liceu Pasteur, na Vila Mariana), mais dois na Aliança Francesa, somados às dúzias de posters pendurados nas paredes de toda e cada sala de aula. Isso cria uma vontade doida de ir conhecer Paris, garanto!
Sou do tipo que lê antes sobre o destino, compra guias, monta planos, otimiza tempo e recursos. E assim fiz. E curti muito.
Logo que a viagem se concretizou, começaram a surgir os vendilhões de mitos. Coisa de gente que nunca foi, ou que foi mas não soube aproveitar, por desconhecimento cultural, à cidade-luz.
Os mitos foram do ridículo ao improvável.
Um ridículo: as ciganas vão te cercar, em praça pública e, enquanto vc não der uns trocados para elas, não terá um pingo de sossego. Este caiu por terra, estrondosamente. Não vi uma cigana sequer... e olhe que fui a muitos lugares!
Outro ridículo: os franceses são sujos, não tomam banho, e andam mal-vestidos. Bastou sair, logo no primeiro dia à tarde, para ver como as mulheres (de todas as idades) e os homens são bem-vestidos, limpos, bonitos mesmos!
As mulheres, desde crianças de pouca idade, até senhoras em idade avançada, têm seus cabelos cortados e penteados, usam (as mocinhas e as mais velhas) pintura sob os olhos, carmim nos lábios, unhas bem pintadas... Onde estão os sujos, os mal-vestidos? Só na mente dos que olham e nada vêem.
Um improvável: os franceses hostilizam os turistas. Realmente, há uma hostilidade no ar, principalmente quando consideramos o sinônimo de hostil como sendo “provocante”. Veja no Aurélio, se tem dúvida.
Há muitas formas de ser provocante: pela beleza externa, pela cultura, pela inteligência...
além de outras. O francês é, realmente, hostil, pois nos provoca com seus sorrisos, com suas gentilezas, com seus comentários interessantes quando indicam um local, por sua elegância onipresente. Não consegui derrubar este mito, em minha interpretação aureliana da palavra hostil. Mas, o enterrei em sua acepção mais vulgar. Vulgaridade não combina com Paris, berço histórico da civilização e da cultura.
Outro mito que me venderam, temporariamente, enquanto ainda em terras brasilienses: os hotéis não têm banheiro com água, pois não se toma banho em Paris.
O hotel em que fiquei, embora de categoria turística simples, tinha um bom banheiro, com água quente a qualquer hora do dia ou da noite. Há quem tenha ido a hospedarias para estudantes - o velho problema de economizar os vinténs, que eu tanto abomino - e tenha sido privado de um bom banheiro.
Mas, Paris é eminentemente cosmopolita e, portanto, apresenta aspectos comuns a vários países. Então, há que ter hospedarias sem banhos quentes, como São Paulo, Rio ou Curitiba.
Julgar a cidade-luz por um detalhe menor é uma injustiça própria dos menores.
O próprio conceito de mito explica porque há os maldizentes que buscam apontar, adrede,
o que não conhecem, e não existem.
No começo do livro sétimo da República, Platão explica o processo pelo qual a alma humana passa da ignorância à verdade. Esse processo, também conhecido como mito da caverna, em filosofia, relaciona, não por acaso, como o ser humano pode transformar em verdade o que sua ignorância aceita, mesmo que seja algo irreal.
E tenho dito. Vive la France! Vive Paris!
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